Nova alfabetização permite 'salto' a aluno

Segundo educadora, se bem aplicado, programa alfabetiza mais de 90% de turma em um ano; outra expectativa é evitar evasão de alunos atrasados

RIO, O Estado de S.Paulo

25 Março 2012 | 03h06

Na turma de realfabetização do Ciep Juscelino Kubitschek, na favela da Manguinhos, zona norte do Rio, os 20 alunos, vindos de escolas diferentes, começam a se conhecer melhor. Elaine Souza, de 12 anos, mostrou habilidade com a bola e ganhou o apelido de Ronaldinha. Fã de Neymar e Cristiano Ronaldo, sonha em brilhar no Real Madrid. O fato de ser um time masculino é detalhe. Sonho é sonho. Elaine é articulada, sabe se expressar, mas esbarra na escrita e na leitura.

"Quando eu era menor, fiz alfabetização. Só que eu não tinha interesse", diz a menina, que nasceu em Santos e há três anos foi morar com a família em Ramos, também na zona norte. Apesar das dificuldades, chegou ao 5.º ano em 2010, quando os resultados da avaliação apontaram o analfabetismo funcional.

Na atual definição do IBGE, analfabeto funcional é a pessoa que tem menos de quatro anos de estudo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, atinge 20% da população de 15 anos ou mais, ou 29 milhões de pessoas. Para avaliar as crianças e adolescentes da rede pública, a Secretaria Municipal de Educação do Rio considerou analfabetos funcionais os alunos que têm grandes dificuldades para ler, escrever e interpretar um texto simples.

Assim como os alunos da Escola Municipal Monsenhor Rocha, na Vila Cruzeiro, as crianças do Ciep JK, na segunda semana de março, também estudaram o poema A Casa, de Vinícius de Moraes. A parte preferida de Elaine foi colorir a casa que a professora Mônica Medeiros ensinou a montar com uma folha de papel. Caprichosa, a menina usou lápis de várias cores. "O mais importante é despertar o interesse dos alunos. Procuro mostrar a leitura e a escrita como meio de sobrevivência", diz Mônica, também diretora adjunta da escola.

Na frente de Elaine, Grece Cardoso, de 13 anos, não parece muito entusiasmada com a tarefa de escrever o próprio endereço. Prefere repetir em voz alta. "Escrever é mais difícil que ler", diz a menina, que parou de estudar no 3.º ano, quando foi morar na favela do Jacaré. Um ano depois, voltou a Manguinhos e à sala de aula.

Processo. "Se 15% dos alunos do 4.º ao 6.º ano não estavam alfabetizados, não é apenas um problema de aprendizado das crianças. A falha não está na criança, está no processo. Os professores têm de ter conhecimento de como ocorre o aprendizado, identificar os problemas. É uma observação diária", diz a coordenadora de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna, Inês Miskalo.

Por meio de um convênio com o instituto, recomendado pelo Ministério da Educação, a Secretaria de Educação do Rio capacitou professores e montou o programa de realfabetização.

"A secretaria não sabia que os alunos tinham nível de dificuldade tão grande. Quando enfrentou o problema, os resultados foram interessantes. Crianças que estavam com um pé fora da escola aprenderam", conta Inês.

Segundo ela, em um ano é possível ter bons resultados. "É preciso ter professores comprometidos, apoio dos diretores, envolvimento do grupo e da secretaria, análise das situações e presença constante de um supervisor ou facilitador", diz.

Segundo ela, se bem aplicado, o programa permite mais de 90% de alunos alfabetizados em um ano letivo. Inicialmente, a secretaria cogitou concentrar as aulas fora do horário regular, no contraturno. Mas constatou que o índice de faltas seria muito grande e optou pela criação de turmas especiais.

No Rio, após alfabetizados, os alunos entram no programa de aceleração, em que fazem dois anos em um. "Depois que o aluno aprende, ele dá um salto fantástico. Com a aceleração, não entra tão defasado no ensino médio", diz a secretária Cláudia Costin. / LUCIANA NUNES LEAL

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