Nova ortografia, velhos dizeres

Nova ortografia entra mais ou menos em vigor.

Ivan Lessa, BBC

02 Janeiro 2009 | 07h24

É oficial: entrou em vigor a nova ortografia. Quer dizer: mais ou menos em vigor. É a única do mundo legislada. Os brasileiros temos pouca intimidade com as vigorações. Há sempre um amanhã, um depois de amanhã e, graças a Deus, um Dia de São Nunca, as calendas (ver dizeres populares em extinção).Depois de anos caitituando Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau (olha o hífen!), Moçambique e Timor-Leste (eu disse que é pra olhar o hífen!), para não falar em Portugal, que andou pisando na bola (ver dizeres em extinção), o Brasil finalmente, mediante quatro decretos promulgados, assinados por presidente da república, conseguiu fazer com que uns bons 250 milhões de pessoas escrevam de forma idêntica.Quer dizer: mais ou menos idêntica. Primeiro, porque dessas 250 milhões de pessoas apenas uns 15% são vagamente alfabetizadas. Desses 15%, pelo menos 10% é de nacionalidade portuguesa. Mas que 15%! É para elas que se legislou. Quer dizer: mais ou menos se legislou. Há dúvidas e indecisões em massa. Principalmente nos meios alfabetizados, por assim dizer.Porque o hífen isso e o trema aquilo e o acento agudo esse e o circunflexo aquele e pororó, pão duro coisa e tal (ver dizeres populares em extinção).De certo, sabe-se uma coisa: o decreto-lei para os hífens e seu uso,que entrou em vigor no primeiro dia de janeiro de 2009, tem até 2012, ou 2021, talvez até 3033, para ser adotado à vera (ver dizeres em extinção) entre a chamada CPLP, a digníssima Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ou os Sete Magníficos Países de Ouro, como são conhecidos nos meios lexicográficos mundiais.De garantido, pode-se afirmar que essa nova ortografia (quer dizer: mais ou menos um acordo, ou um decreto, ou uma lei) vai dar um dinheirão e muita gente boa vai pegar uma nota preta e sair pela aí (ver dizeres públicos em extinção), pelos países da doce língua de Camões e Paulo Coelho, montada na burra do dinheiro.Em memória do trema brasileiro, já que o de Portugal já fôra (fora?) para a cucuia (ver dizeres públicos em extinção) em 1946, e dos hífens indefinidos (ou será agora in-definidos?), segue-se uma mini-compilação (minicompilação?), em forma de diálogo brecht-ionesquiano, com as devidas - e agora mais longas que nunca - pausas pinterianas (conheceram, papudos? Ver etc e tal) de dizeres, gírias e locuções extintos ou luis carlos prestes a se extinguir.E nem foi preciso decreto-lei (decreto lei?) para por um fim a essa mamata ou boca rica do falar popular......- Então, como é que vai essa bizarria? Sempre montado na burra do dinheiro?- Nada, em matéria de nota preta, eu tô matando cachorro a grito.- Sempre pensando na morte da bezerra, hem? - Eu só tô afim de entrar numa boa.- Com essa camisa pra fora da calça vendendo farinha?- Farinha do mesmo saco, que, diga-se, não me parece lá muito católica.- Então vai chutar os tinflas, pô!- Você quer dizer chutar os xongas. Tá no ré ou não?- Nunquinhas, meu boneco, neris de pitibiriba. E do jeito que as coisas vão, esse treco vai ser um Deus nos acuda na hora do péga pra capar. Vai todo mundo acabar ganhando aquilo que Luzia ganhou na horta.- Deu zebra. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.- Então é só você se fechar em copas e ficar aí paradão como um dois de paus.- Só que comendo o pão que o diabo amassou.- Só uma coisinha, pra encerrar. Você viu o Lino?- Eu, não. Você viu o Lão?.....No que ficam os dois repugnantes interlocutores enquadrados na alínea 23 do parágrafo 7 do artigo de lei que regulamenta o novo acordo ortográfico e, simultaneamente, delinea o futuro ato institucional que deverá reger o emprego, mesmo em conversa de botequim, de dizeres, locuções e gírias em desuso, que, por falar nisso, só poderá ser referido como datado.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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