Nova política econômica sinaliza juro alto e dólar forte

Ainda há muita incerteza, mas durante a campanha o republicano indicou que vai cortar impostos e aumentar o gasto público

Altamiro Silva Junior, O Estado de S. Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

NOVA YORK - O governo de Donald Trump, considerando a política econômica de aumento de gastos, cortes de impostos e maior protecionismo sinalizada pelo republicano durante a campanha, deve ser marcado por um período de juros altos e dólar forte, principalmente frente às moedas de países emergentes, de acordo com analistas em Wall Street. 

Ainda há muita incerteza sobre como será o governo Trump e pouco se sabe sobre sua agenda concreta de políticas ou mesmo os nomes de seu gabinete, mas durante a campanha o republicano indicou que vai cortar impostos, aumentar gastos públicos em infraestrutura e defesa e adotar uma política comercial mais protecionista. Só em infraestrutura, Trump disse durante a disputa presidencial que pretende investir até US$ 1 trilhão (ver página B6).

Essa estratégia pró-crescimento econômico, dependendo de como for implementada, pode acabar gerando mais inflação nos EUA. Ao mesmo tempo, o republicano quer tornar o país uma economia mais fechada, revogando tratados comerciais e aumentando tarifas de importações de produtos chineses. O impacto imediato é uma pressão de alta nos preços domésticos e, para lidar com isso, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode ser forçado a aumentar os juros de forma mais rápida.

Os juros altos devem atrair capital para os EUA e reforçar a valorização do dólar, principalmente ante as moedas dos emergentes. “A visão do Fed sobre o cenário de juros terá de ser reavaliada com essa política mais voltada para o crescimento”, afirma o economista do Royal Bank of Canada, Tom Porcelli.

Inflação. “O investidor precisa estar posicionado para inflação maior com Trump”, disse o estrategista da Pimco, Scott Mather, em um vídeo divulgado na sexta-feira pela maior gestora de bônus do mundo. Mather ressalta que é “bastante provável” que o Fed eleve os juros no mês que vem. O gestor prevê que o governo Trump será marcado também por uma “pressão para o dólar se valorizar, marcando uma história de fortalecimento da divisa”. Esse movimento deve ser mais intenso em relação às moedas de emergentes.

Nos últimos dias, os mercados mundiais já vêm se ajustando a essa expectativa de uma nova política econômica dos EUA, e os rendimentos dos títulos do Tesouro americano e de outros países desenvolvidos subiram, destaca o Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 500 maiores bancos do mundo. “A grande expectativa é que a agenda econômica de Trump inclua uma política fiscal mais expansionista, o que implica uma política monetária mais apertada”, afirma um relatório do IIF de sexta-feira.

O instituto prevê uma alta de juros em dezembro seguida por mais duas elevações em 2017 e outras duas em 2018. Mas, dependendo da política fiscal expansionista de Trump, é possível esperar um aperto mais profundo, ressalta o relatório. Ao mesmo tempo, a previsão de expansão de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) prevista para 2017 pode ser revista para cima, dependendo da implementação da agenda do republicano.

Fischer. O The New York Times também avalia que o governo Trump pode desencadear um movimento de altas mais rápidas dos juros pelo Fed. A agenda de medidas pró-crescimento, principalmente o corte de impostos para empresas e famílias, não deve encontrar resistência no Congresso dominado pelos republicanos, destaca a reportagem.

“Um outro jeito de Trump influenciar a política monetária será por meio da nomeação de dirigentes para o Fed”, ressalta o IIF. Há duas cadeiras vagas na diretoria do BC e o mandato da presidente, Janet Yellen, vence em fevereiro de 2018. Nomes com perfil mais “hawkish”, ou seja, de economistas favoráveis a juros maiores, devem aumentar a aposta de aperto monetário mais forte na maior economia do mundo.

Na sexta-feira, o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, defendeu uma trajetória gradual de aumento de juros, em ritmo mais lento que em outros períodos de aperto monetário no país, mas reconheceu que é provável que “solavancos” atrapalhem esse cenário. Na reportagem do The New York Times, a expectativa é que Fischer seja substituído por Trump ao fim de seu mandato no BC, junto com a presidente, Janet Yellen.

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