Nova técnica recupera estrada rural com entulho

Material reciclado da construção civil foi usado para pavimentar 1 km de estrada rural em Piracicaba (SP)

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 03h00

O programa de recuperação de estradas rurais do Estado de São Paulo ganhou um aliado na busca pela sustentabilidade. Semana passada, foi inaugurado, no Bairro Ibitiruna, em Piracicaba (SP), um trecho experimental, de 1 quilômetro, recuperado com uso de material reciclado. A tecnologia é resultado do processamento de entulho mineral (concreto, terra e areia), da construção civil, transformado no chamado agregado reciclado misto (ARM).

 

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Além do apelo ambiental, já que o destinação do entulho é um dos grandes problemas da construção civil, a maior vantagem da tecnologia é o custo. Conforme o engenheiro Petrônio Pereira Lima, diretor de Operações da Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (Codasp), o ARM custa até metade do preço em relação a outros materiais usados na recuperação de estradas rurais, como brita e pedregulho. "O preço depende da distância da usina de reciclagem."

COMPACTAÇÃO

Outra vantagem é o nível de compactação do material. "Fizemos testes de capacidade de suporte do material e o resultado foi de densidade bem superior à dos materiais tradicionais", diz. "Isso nos leva a acreditar que a vida útil das estradas recuperadas com o material reciclável será maior, comparado às de brita, por exemplo, que duram de 5 a 10 anos, com manutenção periódica."

A durabilidade do material é importante nas estradas rurais, onde o tráfego é normalmente pesado. "Terminamos a recuperação do trecho experimental há 20 dias. Já houve duas chuvas fortes e não notamos alteração visível", diz.

Para o agricultor José Carlos Sabino, que mora no Bairro Ibitiruna, o percurso do trecho de três quilômetros entre sua propriedade e a estrada vicinal asfaltada ficou mais rápido. Sabino, que também é presidente da Associação de Moradores do bairro, diz que Piracicaba tem uma extensa área rural e, com isso, a malha viária do município é grande, com 2.500 quilômetros de estradas vicinais. "As propriedades ficam longe umas das outras. Uma boa estrada é essencial."

Segundo ele, além de facilitar a locomoção, a recuperação das estradas na região melhorou, principalmente, o escoamento da produção e a entrega de insumos nas propriedades. "Até os caminhões têm dificuldade para subir alguns trechos com aclive mais acentuado. Isso gera prejuízo para os agricultores."

ECONOMIA

O agricultor Romeu Gomes de Oliveira, da Fazenda Rodomeu, que fica na mesma estrada no Bairro Ibitiruna, diz que a estrada em boas condições está ajudando a economizar combustível, pneu, manutenção dos veículos e, claro, tempo de viagem. "Antes demorava no mínimo uma hora para chegar no centro. Agora, levo meia hora." Com todas essas vantagens, principalmente de menor custo, o diretor da Codasp, empresa de infraestrutura da Secretaria de Agricultura do Estado, espera que o programa ganhe impulso. "A limitação normalmente é a falta de recurso financeiro. A execução a gente dá jeito."

Desde que foi criado, há 12 anos, o Programa Melhor Caminho recuperou cerca de 8 mil quilômetros de estradas rurais, quase 30% deles, ou 2.450 quilômetros, apenas nos últimos dois anos. Ainda é pouco, perto dos 160 mil quilômetros de estrada de terra (ou não pavimentada) em todo o Estado. Mas, de acordo com Lima, nem todas as estradas estão em situação crítica. "Estimamos que de 20% a 25% da malha de estradas de terra estejam nessa situação. Isso significa algo em torno de 40 mil quilômetros. Então, temos 20% das estradas críticas recuperadas", calcula.

A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), dentro do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, recuperou entre 2004 e 2007 cerca de 1.600 quilômetros de trechos críticos localizados em 415 microbacias no Estado de São Paulo. O componente chamado "Adequação de Estradas Rurais" fez parte da primeira fase do programa de microbacias, que atualmente está em fase de planejamento. De acordo com o agrônomo da Cati, José Luiz Fontes, o início da segunda fase está previsto para 2010. A meta, segundo ele, é reabilitar 750 quilômetros de trechos críticos e fazer a manutenção de 3.600 quilômetros de estradas.

 

MATERIAL RECICLADO

De acordo com o diretor da RL Reciclagem, Rodolfo José Soares Lenci, o último levantamento do IBGE aponta que a proporção média nacional de entulho é de meia tonelada por habitante/ano. Ou, ainda, para cada quilo de resíduo domiciliar, são produzidos 5 quilos de entulho. O destino desse entulho são os chamados aterros inertes. A maior parte do entulho, cerca de 70%, é formado por material mineral, como concreto, terra e arreia. É justamente esse material que serve de base para o ARM. "Tratamos o resíduo e o transformamos em matéria-prima novamente. A principal destinação é para uso como base e sub-base para asfalto, substituindo o cascalho, que é um material virgem, extraído de pedreiras", explica Lenci. Segundo ele, os testes confirmam que o ARM tem algumas vantagens físicas, como impermeabilidade e melhor compactação. "Comprovamos que o ARM tem durabilidade de três ciclos hídricos, ou seja, dura três períodos de chuvas fortes, o que é muito importante para as áreas rurais. Além disso, não gera lama na chuva, nem poeira na seca."

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