Zeca Wittner/AE
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Novinho em folha

Restaurado por especialista, móvel modernista nacional ganha valor - e resiste ao tempo

Leandro Quintanilha,

09 de outubro de 2011 | 00h00

Era uma grande mesa de reunião, de jacarandá, fabricada nos anos 60. Mas com um buraco no meio do tampo. Em algum momento, décadas depois de ser fabricada, mas antes de ser reconhecida como uma relíquia, a mesa foi intencionalmente perfurada para a passagem de fios de computador. Descoberta pelo colecionador Sérgio Campos, dono da Galeria Artemobilia, a peça foi recuperada. Um restaurador tapou o buraco com um enxerto e, para finalizar, pintou veios como os da madeira original. Não é mais possível adivinhar onde ficava o buraco.

 

Muitos móveis modernistas dos anos 50 e 60 foram esquecidos, empilhados, descaracterizados, expostos ao sol e à umidade em quintais e porões, até que tivessem seu valor novamente reconhecido. Esse movimento de retomada começou nos anos 90, segundo Campos. As peças ganharam valor artístico e de mercado. Foram incluídas em mostras internacionais. Tornaram-se aspirações de consumo. Mas tão rara quanto o mobiliário de época sobrevivente é a mão de obra qualificada para restaurá-lo.

 

Até recentemente eram apenas os móveis clássicos e coloniais o passado do mobiliário. No Brasil, especialmente os coloniais, de aspecto rústico, menos desafiantes para a restauração. Eram mais comumente casos de conserto. Nos últimos dez anos, passou a haver muito trabalho para quem restaura mobiliário modernista. Um movimento de valorização das matérias-primas nacionais e de reinvenção de gostos e costumes.

 

 

"Na época, criava-se um mobiliário para a vida na cidade", resume Campos. E para a crescente classe média. Tornavam-se comuns, pela primeira vez, móveis hoje muito corriqueiros, como mesas de centro e revisteiros. "Terminada a 2ª Guerra, era um novo jeito de viver, que levava em conta a redução dos espaços domésticos", contextualiza o colecionador.

 

O peso e a consistência do material deram lugar a peças leves, com partes esguias, partindo de conceitos algo provocativos, algo irreverentes. E o mogno dava lugar a madeiras típicas brasileiras, como a imbuia, o cedro, a peroba e o jacarandá, para projetos que combinavam cálculo e poesia, como as criações de Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues e Zanine Caldas, entre tantos outros designers que faziam do móvel um convite ao relaxamento, à contemplação, à imaginação. Móveis que, ao mesmo tempo em que brilham, exibem, orgulhosos, as características naturais de cor e textura da madeira.

 

Mas não há hoje formação específica para restauradores de móveis modernistas. É um trabalho artesanal, feito por autodidatas experientes ou por profissionais que, ao longo da carreira, acumularam diversos ofícios relacionados à madeira. Aos 59 anos, Gézio Braz têm 47 de marcenaria. Começou aos 12 anos, como aprendiz. "Meu primeiro patrão era um marceneiro completo." Isso significava fazer, à mão, muito do que hoje é trabalho de máquinas. E ter conhecimentos de lustração e artes plásticas. Hoje, Braz tenta ensinar o ofício a seu ajudante, de 28 anos. "Porque ele é parente, sabe como é." O rapaz é seu genro e teria uma profissão de grande demanda no mercado - e pouca concorrência. Nessa área, há muito mais trabalho que trabalhadores.

 

 

Nova cor. No antiquário Passado Composto Século XX, de Graça Bueno, a restauração pode ser fiel ao original ou propor inovações. "Algumas vezes, opto por mudar a cor", diz a colecionadora. "Gosto de tons vivos." Alterações estratégicas de material também são feitas: um tampo de madeira pode ser substituído por um de vidro; um mármore comum, por uma versão mais nobre. "Muitas vezes, o que antes era matéria-prima de móveis, hoje só se usa em piso", afirma.

 

Outras vezes, contudo, opta-se por manter o couro original, ainda que esteja desgastado. Mas também pode-se trocar todo o revestimento. Isso tem a ver com as preferências do cliente e com uma sensibilidade para o que pode ficar melhor em cada caso. "Por uma questão de ética, sempre avisamos o cliente sobre as possíveis modificações em relação ao projeto original", afirma.

 

 

Além do restaurador principal, focado na marcenaria, outros profissionais são agregados ao processo, como tapeceiros e empalhadores. Os mais experientes são capazes de reconhecer, só de olhar, o que é ou não original na peça - o ponto de costura ou entrelace alterado, a matéria-prima natural substituída pela sintética. "Móvel é como sapato: se você cuida bem, pode durar para sempre", afirma Graça. "Restauro é manutenção." Porque, além de garantir a funcionalidade imediata do móvel, o trabalho garante sua durabilidade. Muitas vezes, por tempo indeterminado.

 

Um dos principais colaboradores de Graça é o restaurador Marco Cunha, de 43 anos. Ele aprendeu o trabalho com o pai, hoje aos 70, que se dedicou por meio século ao ofício. No começo, Cunha e o pai trabalhavam principalmente com móveis ingleses e franceses. Mas, com o aumento da demanda, o filho foi migrando para a restauração de mobiliário modernista - tem entregas agendadas para até o começo do ano que vem. Cunha diz que não pretende seguir outro rumo, porque, paradoxalmente, gosta de trabalhar com transformações. Vai ficar exatamente onde está: entre o "antes" e o "depois".

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