'Novo papa terá de reformar a Cúria'

Evangelização na Europa e os conflitos culturais na Ásia e na África também são desafios, afirma filósofo

Entrevista com

MARCELO GODOY, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h16

Coordenador internacional de Communio, uma das mais importantes revistas do mundo católico, Jean-Robert Armogathe, de 65 anos, é um bem-humorado padre, filósofo e professor da École des Hautes Études. Amigo há 40 anos de um dos principais papáveis - Angelo Scola -, Armogathe diz que a cultura cristã acabou na Europa: "A consequência mais dramática para nós, católicos, é a criação de guetos". Pároco em Paris, ele tem entre os colabores da revista cinco papáveis - os cardeais Scola, Marc Ouellet, Peter Erdö, Gianfranco Ravasi e Chritoph Schönnbor. Diz, no entanto, que a revista "não é um lugar de poder", mas representa a principal corrente de pensamento da Igreja. Armogathe afirma que os principais desafios do novo papa serão a reforma da Cúria de Roma, a mudança do governo da Igreja, a nova evangelização na Europa e os conflitos culturais na Ásia e na África. Leia, a seguir, trechos da entrevista.

Como deve ser o próximo papa?

Cada papa tem o seu carisma. Pacelli (Pio XII) era diplomata assim como Montini (Paulo VI); Wojtyla era filósofo e Ratzinger, teólogo. O próximo papa deve ser um ótimo organizador, poliglota, conhecedor da realidade internacional, deve ter experiência paroquial e pastoral, conhecer os jovens e mais ainda: deve ser um santo...

D. Odilo Scherer?

Há 115 cardeais e nenhum deles preenche tudo isso. Pode ser que os cardeais encontrem um dentre eles, mas temo que eles devam se arranjar com um que não preencha todos os critérios.

Como resolver os problemas com a Secretaria de Estado do Vaticano? Ratzinger não deixou muito o governo nas mãos do cardeal Bertone?

Desde que existe o cargo - e já são 200 anos - o único secretário de Estado eleito papa foi Pacelli (Pio XII), e ele decidiu conservar para si o cargo.

Quais são os maiores desafios que o novo papa deve enfrentar?Não necessariamente nessa ordem: a reforma da Cúria e do governo de Roma, concedendo um papel maior aos sínodos, o que não significa um sínodo permanente, mas, por exemplo, permitir que eles proponham temas. No governo da Cúria deve haver mais comunicação entre os decastéreos (ministérios), como ocorre em um conselho de ministros. Depois, temos a nova evangelização, o confronto à descrença, ao fato de que, no Ocidente, não se pode dizer mais que a presença cristã está diminuindo - ela não existe mais. A cultura na França, por exemplo, não é mais cristã. Isso acabou. E deve ser dito de modo claro. E, depois, há a nova cultura.

Quer dizer que a América Latina terá de mandar missionários para reevangelizar a Europa?

De fato, na França, temos centenas de padres africanos. Perguntam: "E o matrimônio dos padres?" Isso não tem importância. O desafio cultural sim. Importante é saber como viver o cristianismo na Índia. Não existem párias para nós, pois somos todos irmãos. O problema é que os brâmanes não querem se tornar católicos porque não pretendem conviver com párias. Não se trata de mudar o cristianismo, mas a cultura hindu. O mesmo ocorre na África. Mostramo-lhes o cristianismo europeu, mas agora se trata de viver o cristianismo africano. E devo dizer que os bispos africanos são por demais formados em Roma e, frequentemente, mais romanos do que os romanos. Isso se vê, por exemplo, com o cardeal (Peter) Turkson. Turkson é mais romano que os romanos. Deus nos proteja de um papa africano, pois os cardeais africanos são romaníssimos... (risos).

Desde a sucessão de Paulo VI sempre se espera que o novo papa faça reformas na Igreja. Entre elas estão as relacionadas à moral, como a relação com a homossexualidade ou como acolher os divorciados. Como explicar a uma mulher abandonada pelo marido, não por sua escolha, mas porque alguém não quis mais aquele matrimônio, que ela está excluída da comunhão?

Antes de tudo, quando se fala em moral, súbito se fala da moral sexual e, para mim, mais importante é a moral econômica e social, que interessa a milhões de pessoas. Mas vamos ao homossexualismo, ao aborto. O princípio é claro, há o dogma: a unicidade do matrimônio. Depois, há situações pastorais. Uma depois da outra, a casuística deve ser analisada. Cada vez que encontro uma pessoa, homem ou mulher, nessa situação, faço o pedido de anulação do casamento. Aqui deve haver uma grande piedade da Igreja. O que é muito importante é que existem regras. Se você é homossexual, é importante que você viva em continência. Essa é regra, mas há a casuística. Você não pode dizer a pessoas que vivem como casal há 40 anos: "Você deve deixar seu companheiro". Assim, hoje, não há problema em ser gay, mas se alguém é virgem e tem 20 anos, é alvo de brincadeiras e piadas. Temos liberdade para ter todo tipo de comportamento sexual, menos se pretendemos ser virgens. A pressão social é intolerável e tem consequência: criam-se guetos católicos. Há dificuldade para encontrar lugares em que os jovens possam cantar, viver e passear junto sem fazer amor. É difícil para eles achar pessoas que compartilhem os ideias da família. Assim, a consequência mais dramática da secularização para nós, católicos, é a criação de guetos..

Não basta ser justo, ter uma ética que pode ser compartilhada com os outros. Como a Igreja faz para dizer a esse mundo secularizado que isso não é importante?Por que não basta, porque somos salvos por Cristo. Se não seria pelagianismo, dizer que alguém pode ser salvo por suas obras. E Somos salvos por Cristo mesmo se não vivemos o decálogo. A prostituta será salva e um gângster, pois Cristo morreu também por eles. É por isso que eu temo que teorias, como a cristão anônimo, se tornem uma espécie de puritanismo. A graça é muito mais alta, O puritanismo é provavelmente a coisa mais repugnante no cristianismo, pois é a corrupção da Boa Vida. Esta é viver o decálogo. Ser um bom pai de família, educar os filhos, ser fiel à mulher, pagar as taxas, é a Boa Vida. Mas há vidas vulneráveis e precisamos estar próximos delas, pois Cristo está ali.

O senhor conheceu Scola na revista Communio?

Conheci em Milão, quando ele era seminarista com d. (Luigi) Giussani (fundador do movimento Comunhão e Libertação). Tornamo-nos amigos, e ele vinha constantemente a Paris para seguir as aulas de (Jacques) Lacan e passava em casa. Traduzi Scola e publiquei seu livro sobre a família (O Mistério Nupcial).

Nesse momento de Sede Vacante, muitos olhos se voltam para Communio, pois essa revista tem entre seus colaboradores...

Scola, Erdö, Ouellet, Schönborn, Ratzinger...

...não são apenas cardeais, mas vários papáveis...

A realidade é diferente. Communio não é um grupo de poder que se desenvolveu na Igreja, mas a Igreja que fez o caminho da integração do concílio na vida espiritual, pastoral e comunitária. A ideia de Communio é que a Igreja é um Communio, dentro dela estão em grande parte os movimentos vivos da Igreja. Communio não é só Comunhão e Libertação, ela é a corrente principal da Igreja, não uma revista, mas uma corrente de pensamento.

Dizem que Ratzinger não foi um papa aberto às realidades diversas da Igreja e aos bispos em comparação a Paulo VI?

Os fatos são esses: sete anos e meio, cinco sínodos ordinários e dois extraordinários, Nenhum papa teve tantos sínodos assim. E depois a pedofilia: é o papa que denunciou a pedofilia de um modo claro e insistente e pôs luz na realidade financeira econômica da Igreja. Não a levou ao fim, mas sua última nomeação foi para o Instituto das Obras de Religião ( IOR, chamado de Banco do Vaticano).

E agora ele vira papa emérito. Deve ser difícil conviver com um arcebispo emérito ou com o antigo pároco na mesma paróquia, não?

Sim. Em Paris, fui convidado pelo arcebispo para uma conferência na Quaresma. Convidado, o ex-arcebispo, que era cardeal, levantou-se, subiu ao palco, sentou-se ao meu lado e fez uma segunda conferência. Depois, esqueceu que não era mais o arcebispo e perguntou aos presentes se não havia mais perguntas e dispensou a todos e a mim como se tivesse me convidado. Voltei para a casa no carro do arcebispo. E ele disse: "Você viu? Isso sempre acontece quando nos encontramos. Toda vez a mesma coisa!", Papa emérito é uma bobagem. O título é uma bobagem.

Como fará o próximo papa para conviver com um papa emérito?

A única solução é a medieval: o veneno.. Envenená-lo (risos) Não... agora, sério. É uma coisa terrível. Espero que o próximo papa mude isso, pois significa que na quinta-feira santa, ele ficará em sua capela com três secretários, pois não pode ir à Basílica de São Pedro, pois dois papas não podem celebrar juntos. E depois, manterá as vestes brancas e assim, de longe, quem passeia no jardim? Espero que o próximo papa diga a Bento: "Você é bispo emérito de Roma". A sede de Roma não é uma coisa qualquer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.