Novo pontífice é alvo de grupo de direitos humanos

Jorge Mario Bergoglio, desde ontem papa Francisco, é alvo há 27 anos de grupos de direitos humanos na Argentina. Para uma parte dos militantes da área, ele ilustra o silêncio da Igreja Católica em relação aos crimes praticados pelo regime militar argentino (1976-1983). Outros vão além e sugerem que Bergoglio facilitou a prisão de dois padres da Companhia de Jesus pelos agentes da ditadura. Ele sempre negou envolvimento na prisão dos companheiros de ordem religiosa.

LEONENCIO NOSSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h16

Em 1986, o ativista Emilio Mignone, escreveu no livro Igreja e Ditadura que Bergoglio, responsável na Argentina pela Companhia de Jesus, de 1973 a 1979 - o jesuíta provincial -, atuou em parceria com o arcebispo Juan Carlos Azambuja para retirar por razões ideológicas a permissão dos padres Francisco Jalics e Orlando Yorio de fazer trabalho pastoral no Bajo Flores, uma área pobre da capital portenha. A retirada dos direitos ministeriais dos padres fazia parte, na análise de Mignone, de uma ação conjunta com a Marinha, que uma semana depois, a 23 de maio de 1976, prendeu os religiosos numa grande operação. Os padres foram levados para a Escola de Mecânica da Armada (Esma), principal centro de tortura da ditadura argentina.

Jalics e Yorio ficaram presos até outubro do mesmo ano. Eles conseguiram escapar da máquina da morte argentina. Em depoimentos anos depois, admitiram que o trabalho deles na periferia portenha desagradava Bergoglio.

O advogado Marcelo Parrilli, que milita na área de direitos humanos, usou o livro de Mignone para apresentar, em 2005, denúncia contra Bergoglio na Justiça - o processo não avançou. No conclave daquele ano, Bergoglio apareceu como um dos favoritos.

Em 2010, o jornal Página 12, de Buenos Aires, apresentou cinco novos testemunhos sugerindo uma ligação de Bergoglio com a ditadura argentina. Bergoglio sempre usou como escudo o fato de os críticos não apresentarem documentos provando sua ligação com a ditadura.

Na ótica dos militantes de direitos humanos e de pesquisadores do regime militar argentino, ele já é uma versão latino-americana de Pio XII, o papa citado pela "discrição" em relação ao holocausto durante a 2.ª Guerra.

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