Novo susto com a inflação

A inflação continua infernizando a vida dos consumidores e deu mais um susto no mercado financeiro, com novo repique em maio, quando o IPCA-15, prévia do indicador oficial, subiu 0,86%. Foi a maior alta registrada em maio em 20 anos: em 1996, a variação nesse mês atingiu 1,32%. Economistas do setor privado continuam prevendo para este ano um resultado bem melhor que o de 2015, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aumentou 10,67%. As apostas continuam na vizinhança de 7%. Mantendo a expectativa de menores pressões inflacionárias nos próximos meses, especialistas insistem na previsão de um corte de juros nos próximos meses. Segundo as bolas de cristal mais otimistas, o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciará o corte da taxa básica, a Selic, a partir de agosto ou de outubro. O Copom é formado por diretores do Banco Central (BC) e sua próxima reunião está marcada para junho.

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2016 | 05h00

Essa reunião ainda será comandada, segundo a avaliação corrente, pelo atual presidente do BC, Alexandre Tombini. Será uma grande surpresa se a última reunião dos atuais membros do Copom resultar num corte de juros. Há pelo menos três argumentos a favor dessa previsão. Não é hora de afrouxar a política monetária, disseram esses dirigentes na ata de sua última reunião, publicada no começo de maio. Esse é o primeiro ponto. Em segundo lugar, o novo repique dos preços confirma, pelo menos por enquanto, a persistência de uma inflação elevada. Em terceiro, seria quase descortesia mexer no custo do dinheiro e, portanto, nas condições do crédito antes da posse do novo presidente da instituição. Será mais prudente transferir para a nova diretoria qualquer possível mudança da política.

Indicado para a presidência do BC, o economista Ilan Goldfajn era visto no mercado, até há pouco tempo, como um técnico favorável a uma redução dos juros básicos nos próximos meses. Especialistas citados pela imprensa têm mostrado, nos últimos dias, menor segurança quanto às primeiras decisões dos novos condutores da política monetária. Agora se considera mais provável um começo mais cauteloso, embora ainda se aposte em juros menores até o fim do ano.

O IPCA de maio, com divulgação prevista para o começo de junho, permitirá avaliar com maior segurança a intensidade do repique observado em abril e confirmado, pelo menos em parte, pelo IPCA-15 de maio. A recém-anunciada variação de 0,86% decorreu principalmente da alta de preços de alimentos (1,03%) e de remédios (6,50%).

Mas é prudente considerar também o efeito, ainda muito forte, da correção de preços administrados. Com aumentos significativos, taxas de água e esgoto e de telefonia, além dos preços dos medicamentos, incluem-se nesse grupo. Aumentos de preços administrados podem refletir alterações em políticas, como o fim dos incentivos à redução do consumo de água, a inflação acumulada ou a combinação dos dois fatores (como no caso das tarifas de energia elétrica). A indexação permanece forte, com a inflação passada projetando-se em novos aumentos.

Além disso, o mais importante fator inflacionário, o desajuste das contas públicas, permanece como um desafio para as autoridades. A equipe econômica do novo governo dedicou-se, na última semana, à complicada tarefa de reestimar o resultado fiscal deste ano. Na sexta-feira passada, o governo anunciou que a nova meta do resultado primário do governo central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) a ser enviada ao Congresso é um déficit de R$ 170,5 bilhões. Para todo o setor público, o déficit foi estimado em R$ 163,9 bilhões.

A projeção deixa claro que o conserto das finanças governamentais será trabalhoso e as contas públicas ainda estarão desarranjadas no começo de 2017. Esse detalhe certamente será considerado pelos dirigentes do BC nas decisões até o fim do ano. Se a inflação ceder, em 2016, ainda será principalmente por causa da recessão. As contas oficiais permanecerão como um fator de risco.

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