Numa árvore, um possível remédio contra Alzheimer

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, deu um importante passo para a luta contra a doença de Alzheimer ao obter a patente provisória de um novo composto químico derivado de uma substância chamada spectalina.Estima-se que 1,5 milhão de brasileiros, cerca de 6% da população acima de 60 anos, sofram do Mal de Alzheimer. A doença, descoberta em 1906, mas para a qual ainda não existe cura, aumenta o ritmo da destruição das células nervosas no cérebro, o que provoca a perda de memória, de habilidade motora e da capacidade intelectual.?Temos a esperança de que o composto poderá se tornar um ótimo medicamento para amenizar os principais sintomas da doença?, afirma a docente do IQ Vanderlan da Silva Bolzoni, coordenadora do trabalho.Depois de estudar, durante cinco anos, 1.677 extratos de 709 espécies de plantas da flora paulista, no Projeto Biota-Fapesp, a equipe da pesquisadora isolou 150 substâncias, entre elas a mencionada spectalina, uma substância extraída da Senna spectabilis, mais conhecida como cássia do nordeste ou tula-de-besouro, uma árvore de seis metros de altura que floresce em todo o território brasileiro.?Nosso trabalho foi o de modificar a estrutura molecular desta substância e acrescentar funções para torná-la um fármaco?, explica.Descoberta por acasoEstudada como antiinflamatório, analgésico e antitumoral desde 1995, as novas propriedades da planta foram descobertas por acaso, durante os experimentos da sua ação contra tumores.?O composto não impede a morte das células nervosas, mas evita a destruição de uma outra substância que faz a comunicação entre os neurônios, a acetilcolina, um neurotransmissor, associado à formação da memória?, explica Vanderlan.Os medicamentos mais utilizados contra os sintomas de Alzheimer atualmente conhecidos no mercado não conseguem fazer com que o organismo desacelere a eliminação dos neurônios ? e ainda provocam muitos efeitos colaterais.Mas as pesquisas continuam. Uma equipe chefiada pelo bioquímico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sérgio Ferreira, por exemplo, relata a identificação de mais oito substâncias que retardam e inclusive paralisam as células nervosas.Baixo potencial tóxicoO grande diferencial da spectalina que chamou a atenção da comunidade científica é o seu baixo potencial tóxico.?Como combatemos os níveis da acetilcolinerase, que destrói a acetilcolina e está em quase todas as partes do corpo humano, os medicamentos utilizados pelos pacientes de Alzheimer possuem vários efeitos colaterais, principalmente por se tratar de uma substância associada à contração muscular, ao coração e a digestão?, aponta o médico Newton de Castro, pesquisador da UFRJ que estudou a toxidade da substância.Nos testes utilizando a spectalina não foram constatados os mesmos danos verificados pelos medicamentos já comercializados. Mas Castro considera os resultados ainda bastante preliminares.?Como se trata de uma doença crônica, ou seja, que acompanha o paciente pelo resto da vida, necessitamos de mais estudos para ter certeza de que as reações adversas não venham a se manifestar?, afirma.Melhora na memóriaJá em experimentos com 20 camundongos realizados pela veterinária da UFRJ Mônica Rocha, a spectalina proporcionou melhora significativa na memória dos animais, porque impediu a eliminação da acetilcololina, que melhora a capacidade de reter informações, sem interagir com outras substâncias do sistema nervoso central.Embora já tenham sido testados, com excelentes resultados, cinco diferentes compostos baseados na substância, segundo os pesquisadores, é ainda cedo para se pensar em medicamento com produção em larga escala.?Em média um medicamento leva sete anos para chegar ao mercado. No presente caso, faltam ainda os testes clínicos?, ressalva Castro.Na Unesp, o químico Cláudio Viegas, pesquisador do IQ, estuda agora novas concentrações dos compostos para tornar viável, a custos economicamente acessíveis, um futuro processo de produção de remédios. ?Assim será possível oferecer medicamentos mais baratos à população?, conclui Vanderlan.

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