Eugênio Sávio/Divulgação
Eugênio Sávio/Divulgação

O admirado homem Das Neves

Quando o baterista roubou o show e o coração das fãs do Chico

Ivan Marsiglia

10 Março 2012 | 16h48

A segurança do HSBC Brasil nem se surpreendeu quando, pouco antes do bis no show de Chico Buarque em São Paulo no dia 2, uma menina escalou o palco para agarrar seu ídolo. Tomou um drible, no entanto, ao perceber que ela se dirigia não ao dono daqueles olhos verdes que visitam os sonhos das mulheres brasileiras, mas à linha de fundo do palco, onde estava seu veterano baterista. Foi por um triz que os beques de chácara conseguiram barrar o avanço da atacante, diante da gargalhada de Chico e do sorriso irônico de Wilson das Neves, 76 anos de malandragem: "Deixa ao menos ela dar um abraço..."

 

Não que o craque carioca das baquetas - que também é cantor e compositor, e tabelou com grandes nomes da MPB como Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Nelson Cavaquinho, João Donato, Wilson Simonal e Egberto Gismonti - não esteja acostumado a ser centro das atenções. Há exatos 30 anos na banda de Chico, que já declarou "não subo ao palco sem ele", mais de uma vez dividiu os holofotes com o artista, a quem chama de "chefia".

 

No show Carioca, de 2008, cantou com Chico o samba Grande Hotel, que compuseram juntos em 1997. Na atual turnê, ambos protagonizam um dos melhores momentos: quando Chico o convida para cantar Sou Eu, de sua própria autoria, e Tereza da Praia, de Billy Blanco e Tom Jobim. De chapéu, terno branco e lenço de seda verde, Das Neves desfila a sua bossa e o vozeirão, disputando com a "chefia" o amor da plateia: "O verão passou todo comigo", canta Chico. "O inverno, pergunta com quem", responde o baterista, para riso geral. Nas apresentações da descolada Orquestra Imperial, em que Das Neves também toca, o clímax para a moçada é vê-lo pousar as baquetas sobre a caixa e vir à frente do palco interpretar, com sua voz rouquenha, O Samba é meu Dom, parceria dele com o letrista Paulo César Pinheiro.

 

"Se me chamar, ô sorte!", agradece o baterista, com seu bordão favorito, que servirá de título para seu quarto CD como cantor, que sai até o fim de 2012. No primeiro, O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996), após uma série de trabalhos instrumentais, foi a gravadora CID que o dissuadiu de convidar uma cantora e o convenceu a soltar a voz. Em 2004, gravou Brasão de Orfeu (Acari Records/Biscoito Fino) e, em 2010, o elogiado Pra Gente Fazer Mais um Samba (Universal).

 

Nascido no bairro da Glória, filho de um funcionário da companhia telefônica e uma dona de casa, ele conta que ninguém na família era músico, mas todos gostavam de festas e de terreiros de candomblé. Foi o baterista Edgar Nunes Rocca, o mitológico Bituca, quem o iniciou na arte. Com 14 anos, o garoto Wilson ia aos bailes com Bituca e o ajudava a montar e desmontar o instrumento. Sentiu a vocação na hora. "Eu sabia que sabia tocar, mas não sabia como", tenta explicar. "No momento em que sentei na bateria pela primeira vez, ela virou minha amada amante. É por isso que eu não bato nela, eu a toco", completa, cheio de jeito.

 

"Wilson das Neves é talvez o único baterista em atividade no Brasil que vem de uma escola anterior à bossa nova", afirma o crítico musical Zuza Homem de Mello. "Ele é capaz de passear da levada de samba mais tradicional até a mais contemporânea." Uma versatilidade que combina à perfeição com a música de Chico Buarque. E que explica também o fato de ele ser um sujeito nem um pouco chegado a purismos. "Quem tem raiz é planta. E lá samba tá agarrado a algum lugar?", pergunta o admirável sambista de todas as gerações.

 

Para o show em cartaz no País, a banda ensaiou por quase dois meses. A chefia é exigente e não gosta de improviso, conta Wilson das Neves. Durante as viagens, d. Silvia, com quem está casado há 39 anos, segura as pontas do ciúme e o espera na companhia dos quatro netos e um bisneto. A idade, ele garante, nunca bateu: "Não tenho medo da morte, nem plano de saúde. Pra quê, se não quero ficar doente?"

 

Chico também não tem ciúmes d a carreira solo do amigo - até a incentiva. Ainda outro dia, perguntou-lhe se precisava de ajuda na divulgação dos seus discos. "Quando eu chamar o senhor vai ser pra salvar uma vida, não pra ir cantar comigo no Estrela da Lapa", repicou o baterista, referindo-se à popular casa de shows carioca. Com CD novo, além de um documentário e um livro sobre sua vida a sair este ano, o malandro até que tem se saído bem. Ô sorte!

 

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