O ‘amanhecer’ de Aécio

Lançado candidato para a eleição de 2014, o senador terá de encarar, além de uma presidente em ascensão, o desafio de pacificar, unir e principalmente entusiasmar as bases tucanas

LUIZ GONZAGA DE SOUZA LIMA | DOUTOR EM CIÊNCIAS POLÍTICAS PELA UNIVERSIDADE DE MILÃO E AUTOR DE A REFUNDAÇÃO DO BRASIL. RUMO À SOCIEDADE BIOCENTRADA (RIMA),

08 Dezembro 2012 | 16h37

Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Guerra lançaram formalmente a candidatura de Aécio Neves para as eleições presidenciais de 2014. Aécio diz que “cumprirá seu papel”, mas “...a candidatura deve ser decidida no amanhecer de 2014”.

Não se pode dizer que os caciques de alta plumagem do tucanato foram açodados. O lançamento de última hora da candidatura presidencial em 2010 é uma experiência que não querem repetir. Também não se podem atribuir as reticências de Aécio ao decantado jeito matreiro tão comum na tradição política mineira. Grandes dilemas precisam ser decifrados pelo senador mineiro até o amanhecer de 2014. A madrugada desse amanhecer será longa.

As condições agora são diferentes daquelas que existiam em 2010. E não são mais favoráveis. Lá, Aécio era um governador com alto índice de avaliação, que se preparava para ungir-se com a vitória do seu indicado para o governo de seu Estado. Hoje Aécio é um senador com baixo perfil de ação política, que colheu nas eleições municipais de outubro resultados ambíguos. Venceu na capital, mas diante de uma afirmação do PT - 40% de votos - e sofreu derrotas em Juiz de Fora, Montes Claros e Uberlândia, importantes centros gravitacionais do universo político mineiro. Sua participação “nacional” nessas últimas eleições foi, para bem dizer, discreta.

Por outro lado, Aécio enfrentará nas eleições uma presidente que tem surpreendido o Brasil com uma condução segura e responsável do País através do tsunami da crise internacional, que, aos olhos da população, tem sido rigorosa no combate à corrupção e, sobretudo, que reforçou os programas sociais de combate à miséria, à pobreza e à exclusão.

Além da força própria da história política da presidente, Aécio enfrentará um governo bem avaliado, que tem batido inclusive os índices de popularidade conferidos pelos brasileiros a governos passados. E enfrentará também uma larga aliança político-partidária que só o poder - ou uma vigorosa luta social - pode construir.

É nessas condições, diferentes de 2010, que Aécio iniciará a sua travessia rumo ao amanhecer de 2014. Será necessário mais do que a pacificação e a unidade do PSDB. Será essencial uma adesão entusiasta das bases tucanas a sua candidatura. As dificuldades não serão poucas. Basta pensar nos efeitos da derrota de Serra nas eleições paulistas e na frustração declarada de setores do PSDB ao lançamento da candidatura de Aécio, já que nutriam esperanças da realização de prévias.

Porém, a maior das dificuldades encontra-se na criação de um programa político capaz de apaixonar os eleitores brasileiros.

O Brasil é especial. Surge como uma empresa internacional, mundial, no alvorecer do século 16. Surge como uma agroindústria moderna, avançada para a época. O resultado social dessa empresa foi a construção de uma sociedade estranha, dominada pelo que pode ser chamado de incorporação excludente, em que os humanos são incorporados na produção e excluídos de todos os seus benefícios.

Desequilíbrio permanente. Nesse contexto, a administração da sociedade não foi a administração da vida social, mas exclusivamente a administração da economia. Com o passar do tempo nasceu este Brasil contraditório, que se aproxima da condição de quinta economia do mundo sendo ao mesmo tempo um país dominado pela pobreza, pela miséria e pela exclusão. Aqui foi criado um desequilíbrio permanente entre economia e sociedade. A urbanização e a industrialização foram importantes, mas permanecem vivos grandes desequilíbrios do passado.

Desde 2002 ocorre aqui uma tentativa de redistribuição de renda através do Estado e de inclusão de grandes segmentos da população não só no consumo básico, mas também no acesso à educação, saúde e tecnologias como TVs, celulares, computadores, motos, etc. É uma tentativa de transformação da estrutura social desequilibrada através do Estado e com compensações às empresas. Esses resultados foram alcançados com a manutenção da democracia e com o reconhecimento político dos sujeitos sociais. É pouco, mas já é muito.

A proposta política tradicional do PSDB é centrada na eficiência, ou seja, a administração eficiente do desequilíbrio entre economia e sociedade, que constrói o equilíbrio das contas, mas aprofunda o desequilíbrio social. Com esses conteúdos, parece que não recolherá apoio entusiasta da população. A questão ética, a julgar pelos processos judiciais em curso, não distinguirá de forma nítida a candidatura tucana.

A questão programática é a mais complicada para a candidatura de Aécio Neves. Para resolvê-la é necessário mergulhar na história brasileira, decifrar seus dilemas e estabelecer novas relações com a sociedade atual, criativas, democráticas e transformadoras. Parece ter razão o sociólogo brasileiro Fernando Henrique Cardoso quando diz que o PSDB precisa ouvir as vozes das ruas, escutar a sociedade... Construir um rumo. É o tal rumo estratégico, do qual fala Eduardo Campos. Não é fácil encontrá-lo.

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