O amor que já ousa dizer seu nome

Do Começo ao Fim coloca em foco o tema do incesto e do homossexualismo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

Aluizio Abranches esteve quarta-feira na cidade. Veio participar de um debate, à noite, com estudantes, na USP. "Tenho feito muitos debates sobre Do Começo ao Fim", ele explica. No Rio, o diretor de Um Copo de Cólera e As Três Marias exibiu seu novo longa para diferentes associações de psicanalistas. Em princípio, parece que o filme tem tudo a ver. Do Começo ao Fim trata de homossexualismo e incesto, por meio da história de dois (meio) irmãos que se tornam amantes. Deitá-los no divã da psicanálise, deitar o próprio filme, parece buscar a melhor plateia, ou a que tem mais entendimento, para entendê-los. Abranches nem se surpreende mais - os psicanalistas não veem Do Começo ao Fim como um filme "sobre" ser gay, mas sobre afeto.

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"Acho que o homossexualismo não é mais um tabu, como era. Pode causar incômodo, mas tabu não. A ideia era fazer um filme para provocar discussão, mas eu não queria exagerar nas provocações gráficas. As cenas de sexo não são muitas, tenho um nu frontal masculino, mas também não foi intencional. A melhor cena foi aquela, o ator não fez objeção e eu terminei escolhendo o plano, mas queria estimular um debate, não provocar gratuitamente nem chocar." Abranches espera estar reabilitando Caim e Abel. Cita, a propósito, o livro de José Saramago, que acaba de ler. "Caim discute a moral como uma criação humana, e é também o que está em discussão no filme. Os irmãos são adultos, não fazem mal a ninguém. O irmão mais velho é protetor do mais jovem, como acho que deve ser o verdadeiro amor. A relação não configura um abuso, como seria entre pai e filha, ou mãe e filha."

Abranches cita filmes sobre o incesto - Sopro no Coração, de Louis Malle; La Luna, de Bernardo Bertolucci. "Existe toda uma nomenclatura para se referir a essas relações. São analisadas exaustivamente. Complexo de Édipo, de Electra. Já a relação entre irmãos nem é nomeada." Mas a situação familiar é importante. "O filme trata de uma lei cuja reguladora é a família." A mãe, interpretada por Júlia Lemmertz, é fundamental no processo. Ela intui, desde cedo, quando vê os meninos abraçados, na cama, que seu afeto é especial. Seu olhar passa uma apreensão, um estranhamento. Os garotos são filhos de diferentes pais. O argentino esboça uma preocupação, tenta, mas não chega a ser repressivo. O brasileiro (Fábio Assunção) aceita o fato serenamente.

Para entender esse amor, seria preciso virar o mundo pelo avesso - é uma frase do diálogo. Mais tarde, o pai repetirá ao filho palavras da mãe, que se referem justamente às complexidades da vida e ao desafio de assimilá-las. Nada disso é gratuito em Do Começo ao Fim, tudo foi pensado. Mesmo assim, o repórter esboça sua restrição ao filme - não existe verdadeiramente tensão e, sem ela, a dramaturgia fica fraca. As coisas acontecem de maneira meio fantasiosa, muito fáceis para ser críveis, em todas as etapas - a descoberta, a aceitação, a separação, o reencontro. O amor que não ousava dizer seu nome, segundo a expressão famosa de Oscar Wilde, agora ficou muito fácil.

"Estamos em 2010, quis fazer um filme para este tempo", diz o diretor. Abaixo Oscar Wilde, viva George Bernard Shaw - Abranches em outra frase, agora deste escritor. "As pessoas em geral se perguntam por quê? Eu prefiro perguntar por que não?" Assim colocada a questão, o que a muitos parecerá defeito na verdade foi a qualidade buscada de Do Começo ao Fim. "Tenho tido respostas variadas do público. Muita gente diz que ele poderá ajudar gays jovens a assumir sua identidade sexual. A obra não é militante. Não o fiz com esse propósito, mas me agrada que muitas mães me venham falar de maneira calorosa sobre Do Começo ao Fim. A questão, para mim, é aquela assinalada pelos psicanalistas - o afeto."

Muito importante no filme é o elenco. Abranches tem atores conhecidos em papeis importantes, mas ele queria jovens de preferência desconhecidos para a dupla de protagonistas. João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso chegaram sem preconceitos e libertos para fazer o que fosse preciso. A fase em que são crianças causou mais estranhamento na mídia. Afinal, um garoto de 7 anos - Gabriel Kaufman - fazendo um gay... "Tomamos cuidados especiais durante todas as etapas da realização, para não prejudicar quem quer que fosse", diz o diretor. Sua cena favorita no filme é aquela em que o irmão mais velho vê o irmão dormir, após o tango que dançam nus. "Essa cena é um rebatimento daquela em que Júlia vê os garotos na cama, abraçados. Agora, o que um deles vê é a cama separada, a injunção da vida adulta." Abranches dedica Do Começo ao Fim a seus pais. Ele já havia dedicado Um Copo de Cólera à mãe, Julieta. A nova dedicatória não tem valor de declaração. O filme não é autobiográfico. Não que fosse problema para ele assumir. Só não é, e o diretor prefere que fique claro.

Serviço

Do Começo ao Fim (Brasil/ 2009, 90 min.) - Drama. Dir. Aluizio Abranches. 18 anos. Cotação: Ruim

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