O arqueólogo que trouxe o Riesling para o século 21

Ernst Loosen não pretendia ser enólogo. Felizmente aceitou o fardo

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2008 | 03h47

A uva favorita da crítica tem um missionário. Bem atípico, pois Ernst Loosen não parece existir de verdade, com seu cabelo cacheado, terno com colete de tweed e óculos de Harry Potter. Tem a aparência de um professor ligeiramente excêntrico. E é. Afinal, ele era arqueólogo, especializado nas ruínas romanas que abundam em sua região, a do vale do Rio Mosel, no norte da Alemanha. A família tem 200 anos de história com o vinho, coisa que Ernie, como é conhecido, não pretendia continuar. Quando ocorreu a mudança de geração, a família foi pega sem ninguém que assumisse os vinhedos e a tradição dos Loosens. Único filho maior de idade em 1988, coube a ele a tarefa. ''Com meu pai não se discutia'', conta um pouco surpreso ainda hoje. ''Eu me revoltei, fui para a faculdade, estudei arqueologia... e agora, sou enólogo.'' Mesmo tendo se dedicado com afinco à tarefa, manteve um mínimo saudável de ceticismo em relação ao furor germânico por números e racionalidade. ''Desde 1971 a legislação alemã tenta definir o vinho por exames acurados de laboratório. Termos como densidade do mosto, nível de açúcar residual e grau de acidez parecem mais importantes para os estudantes de enologia que o gosto do vinho.'' Ele prefere usar palavras como nitidez, pureza, foco, mais adequadas para falar de imagens que da bebida. Pelo visto, a obrigação de ser o que não queria não foi tão pesada, pois o resultado levou a uma avaliação definitiva de Hugh Johnson (''Ernie Loosen jogou o Riesling alemão direto no século 21'') e à escolha de Loosen pela revista inglesa Decanter como Homem do Ano em 2005. Em sua rápida e discreta visita a São Paulo, Loosen mostrou os seguintes vinhos, acrescidos de uma surpresa: uma garrafa meio suja de um Ürziger Würzgarten Kabintett 1978, ''feito pelo meu pai''. Parece que não ficaram traumas da autoridade paterna. E o vinho era excelente. OS VINHOS DEGUSTADOS Dr. ''L'' - Vinho básico no estilo villages, com uvas compradas, mas com ótimo estilo. Boa introdução à uva, como ressaltou Saul Galvão na sua coluna (89/100 pontos para o crítico) Ürziger Würzgarten Kabinett 2006 - A versão atual do imponente 78. Com notável mineralidade e acidez, para esperar longamente. Erdener Treppchen Auslese 2006 - No estilo mais amável dos ausleses, com açúcar residual, excelente companheiro para comida picante.

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