O avanço da uva secreta

É mais que sensível o progresso da Carmenère, que já foi chamada de "uva secreta" do Chile, cujos varietais são aprimorados a cada dia, à medida que agricultores e enólogos passaram a compreender e trabalhar melhor a cepa. Ela já entrava nos cortes de vinhos caros e famosos ao lado da Cabernet Sauvignon (Clos Apalta, Don Melchor). Essa uva, embora tenha sido importante onde nasceu, hoje é quase exclusividade do Chile.

saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2009 | 04h38

Os pioneiros do vinho chileno importaram as uvas, principalmente de Bordeaux, no século 19, antes que uma praga terrível arrasasse os vinhedos da Europa. Para salvar as vinhas europeias, os vinhateiros foram obrigados a enxertá-las em raízes de uvas americanas, não viníferas, que eram resistentes à praga. Só no Chile as raízes são originais.

Antes da praga, a Carmenère era bastante difundida em Bordeaux, de onde praticamente desapareceu quando as uvas foram replantadas, pois não se deu bem com o sistema de enxerto.

As uvas europeias foram para o Chile por volta de 1851. Carmenère e Merlot foram misturadas e acabaram plantadas juntas, o que não é bom, pois amadurecem em tempos diferentes. Em 1994, cientistas desvendaram a identidade da cepa e em 1996 apareceu seu primeiro varietal, o Gran Vidure, outro nome da uva.

O curioso é que, mesmo desconhecendo as identidades (ou fingindo que não sabiam), os chilenos usavam a Carmenère em cortes com a Cabernet Sauvignon, a uva rainha do Chile, dando origem a excelentes vinhos.

É surpreendente o fato de a Carmenère não ter sido identificada antes. Ela é parecida com a Merlot, mas amadurece mais tarde. Olhando de cima um vinhedo com as duas uvas, elas se distinguem pela cor. A Merlot já está madura, enquanto a Carmenère ainda está longe do ponto. Colher e vinificar uvas maduras e verdes ao mesmo tempo não era nada bom.

A partir daí elas foram se distanciando. A área plantada com a Carmenère subiu de 95 hectares para 6.045 hecares atualmente, uma boa parte concentrada no Valle de Rapel.

No começo, os vinhos Carmenère não eram essas coisas. Era comum encontrarmos tintos agressivos com sabor vegetal exagerado. Mas as coisas estão melhorando e hoje já encontramos bons exemplares, nada rústicos. como demonstraram estes vinhos básicos, feitos em grandes quantidades e com preços relativamente baixos, menos de R$ 50.

CONO SUR BICICLETA CARMENÈRE 2007

ONDE ENCONTRAR: WINE PREMIUM, TEL. 3040-3434

PREÇO: R$ 23,80

COTAÇÃO: 87/100

A Cono Sur é uma vinícola exemplar de Colchagua, ligada à Concha y Toro, mas com bastante autonomia. Ela se destaca pelos feitos com a Pinot Noir e pelos cuidados na preservação ambiental. Suas instalações e, principalmente, plantações em Colchagua, no Valle de Rapel, são exemplares. O nome desta linha básica pretende refletir essa consciência ecológica. Um tinto ligeiro que não entusiasma, mas não decepciona. Boa relação qualidade-preço. Está pronto, não deve envelhecer. Vinho básico, sem estágio em barricas de carvalho, para consumo rápido e ocasiões informais. Aroma frutado, gostoso, mas não intenso. Algo floral no aroma. Boa acidez (não enjoa) e taninos macios. Leve, de pouco corpo. Álcool bem equilibrado. Final meio rústico e curto. 13,5% de álcool.

TERRA ANDINA RESERVA CARMENÈRE 2007

ONDE ENCONTRAR: VINCI, TEL. 2797-0000

PREÇO: R$ 31,24 (OFERTA)

COTAÇÃO: 89/100

A Terra Andina é relativamente nova em nosso mercado. Empresa do grupo Santa Rita, faz vinhos com uvas de várias regiões. A denominação é Rapel, ao sul do Maipo, dividida entre os Vales de Cachapoal e Colchagua. Este vinho surpreendeu positivamente. No aroma aparece claramente o toque de madeira, mas a ficha técnica diz que apenas 20% do total envelheceu, durante apenas dois meses, em barricas de carvalho. Aroma gostoso e intenso com toque de chocolate (da barrica?). Fruta e madeira convivem agradavelmente. Mesmo nível na boca. Sedoso, macio, com algo de chocolate. Corpo médio. Um tinto ?doce?, mas nem de longe enjoativo. Macio, com algo de chocolate e de baunilha. Equilibrado, fácil de beber e gostar. Só ligeiramente alcoólico. 14% de álcool.

SANTA HELENA SELLECCIÓN DEL DIRECTORIO 2007

ONDE ENCONTRAR:INTERFOOD, TEL. 2602-7255

PREÇO: R$ 40,24

COTAÇÃO: 88/100

A Santa Helena é parte do grande conglomerado San Pedro, o segundo grupo vinícola do Chile. Tem vida própria e 1.250 hectares nos Vales de Cachapoal, Colchagua e Curicó. Tradicional produtor de varietais corretos de preços atraentes.Três linhas básicas em ordem de qualidade crescente: Reservado (a básica), Siglo de Oro e Selección Del Directorio. Recentemente passou a fazer vinhos super premiuns (mais caros), como Vernus, DON e Notas de Guarda. Os da linha Selección Del Directorio dificilmente desapontam. Tinto de cor intensa. Aroma gostoso, equilibrando toques de carvalho com muitas frutas, mas não dos mais intensos. Equilíbrio continuou na boca. Macio, sedoso e longo. Potente, mas não alcoólico. Bela concentração. Longo. Pronto para o copo. 14% de álcool.

ANAKENA SINGLE VINEYARDS 2007

ONDE ENCONTRAR: ARMAZÉM DOS IMPORTADOS, TEL. 3539-0970

PREÇO: R$ 48

COTAÇÃO: 87/100

Trata-se de uma vinícola nova, que vem despontando. Seu leque de vinhos vem crescendo e a média é mesmo boa. Vinhedos e adega moderna no Valle de Rapel. Este é um vinho simples, sem grande pretensões e gostoso de beber. Rubi intenso e aroma ótimo, surpreendente. Chocolate e baunilha se misturam às frutas. Apesar de bom, o aroma deste vinho não é dos mais intensos. Mesma combinação na boca. O curioso é que o vinho não passa pelo carvalho, de onde costumam vir essas características. Melhor na boca: macio, e com boa concentração de sabor. Equilibrado. Acidez agradável, nada enjoativo. Um vinho bom para se beber meio despreocupadamente. Está mais do que pronto para o copo. 13,5% de álcool.

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