O bailarino dos ringues era um homem essencialmente político

Insustentável leveza – havia uma graça de bailarino na forma como Cassius Marcellus Clay Jr., aliás, Muhammad Ali, se movimentava no ringue. Ele parecia uma borboleta, mas batia pesado. Virou lenda – o Pelé do pugilismo. Em 1999, a revista Sports Illustrated o considerou atleta do século. Cassius Clay tornou-se campeão dos pesos pesados ao derrotar Sonny Liston em 1964. Três anos mais tarde, perdeu o título ao se recusar a lutar no Vietnã. Recuperou o posto, mas perdeu-o para Joe Frazier. Recuperou de novo o cinturão numa luta que entrou para a história, contra George Foreman, no Zaire.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2016 | 03h00

Cassius Clay converteu-se ao islamismo e virou Muhammad Ali. Sua trajetória é ilustrativa dos anos 1960, a chamada “década que mudou tudo”. Na América, foram anos gloriosos, mas duros, de lutas por direitos. Entre Martin Luther King, a via pacífica, e Malcolm X, a luta armada, os negros da ‘América’, e Cassius/Ali, fizeram suas escolhas. A de Ali foi radical. Sua maior luta não foi no ringue – foi contra o racismo. Ficou famosa sua frase, sua sentença: “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo. Por que vou fazer a guerra contra eles?” A luta na África marcou um retorno às origens. Virou um evento planetário captado pelo cinema. O documentário Quando Éramos Reis, de Leon Gast, opõe de um lado o pan-africanismo de Ali à alienação de George Foreman.

Se há um tema em When We Were Kings, não é a luta propriamente dita, mas a negritude. James Brown, BB King e Spike Lee acompanharam Ali no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo. O escritor Norman Miller, conhecido por suas análises críticas da vida norte-americana, também. O filme demorou 23 anos para ser concluído. As 250 horas de material, reduzidas a sucintos 89 minutos, mostram o clima que cercou a luta. Sexo, drogas e rock’n’roll, por que não? A luta ocorreu no quadro de um festival de música que durou três dias inteiros.

Quando o filme ficou pronto e ganhou o Oscar, a rivalidade de Ali e Foreman era coisa do passado e o segundo ajudou o antigo oponente a subir ao palco. Ali já estava gravemente enfermo de Parkinson. Foi um daqueles momentos de arrepiar, em toda a história da Academia. Em 2014, houve uma versão de ficção – Eu Sou Ali, a História de Muhammad Ali, de Clare Lewins, com a participação do próprio. E houve, claro, Ali, de Michael Mann, de 2001, que levou Will Smith à candidatura ao Oscar. O filme cobre dez anos decisivos da vida do boxeador, da conquista do título à conversão e à luta no Zaire.

Mann usou tecnologia digital, criando cenas no limite da experimentação. Numa delas, Ali treina para a luta contra Foreman. E corre, corre. É como se suas vida e sua resistência dependessem da corrida. Mann entendeu o enigma de Cassius Marcellus Clay/Muhammad Ali. O bailarino do ringue era um homem essencialmente político. Nunca houve outro como ele. O maior de todos.

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