O balanço de pagamentos tem custo

O balanço de pagamentos divulgado ontem pelo Banco Central, relativo ao mês de outubro, mostra uma deterioração das transações correntes e uma melhoria da conta de capitais ? esta cobrindo o déficit daquelas, mas a um preço elevado.

, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

O déficit das transações correntes foi de US$ 2,911 bilhões, o mais alto de 2009 (96,9% acima da média dos dez meses do ano) e teve origem em dois fatores principais: queda do superávit da balança comercial, que em outubro foi de US$ 1,328 bilhão, 41% abaixo da média dos dez meses do ano; e déficit crescente dos serviços e rendas, que se deve principalmente à valorização da taxa cambial.

Parece difícil conter essa valorização do real ante o dólar, especialmente enquanto a moeda norte-americana continuar se desvalorizando no mundo e enquanto a economia dos países industrializados não sair da estagnação.

O déficit das transações correntes, que na perspectiva do mercado poderá atingir US$ 35 bilhões em 2010, não parece preocupar as autoridades, levando em conta as reservas de US$ 233 bilhões, no final do mês de outubro, assim como as entradas de capitais estrangeiros, que permitiram um saldo de US$ 9,184 bilhões no balanço de pagamentos no mês.

Realmente, a situação das contas externas a médio prazo não preocupa. Todavia, seria necessário levar em conta o preço que se paga por isso, que, se não fosse tão elevado, permitiria mais investimentos rentáveis.

É preciso estabelecer uma distinção clara entre investimentos diretos estrangeiros e os chamados investimentos especulativos. Os primeiros somaram, nos dez meses do ano, US$ 22,4 bilhões (em termos brutos) e são aplicações que têm caráter duradouro, criam empregos e aumentam as receitas fiscais, muitas vezes favorecendo a exportação e reduzindo a importação. Os segundos prestam serviços valiosos, mas são mais voláteis.

Todos esses investimentos têm um custo. Em outubro entraram no País US$ 11,5 bilhões, em termos líquidos, mas pagamos US$ 1,723 bilhão de lucros e dividendos sobre os investimentos e US$ 1,125 bilhão de juros. Nossa dívida externa somou US$ 204 bilhões, crescendo US$ 2,2 bilhões no mês, e sobre esse aumento teremos de pagar juros por muito tempo. Conviria levar em conta, ainda, o custo de nossas reservas em divisas.

Vemos, assim, que não se pode contar só com o capital estrangeiro, que, aliás, alimenta a valorização do real.

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