O barítono que descobriu o microfone

Acostumado a cantar sem amplificação, o brasileiro se impressiona com a tecnologia de som usada na Broadway

CAMILA VIEGAS-LEE - NOVA YORK, ESPECIAL PARA O ESTADO,

09 Junho 2008 | 00h00

O cantor lírico brasileiro Paulo Szot canta aos sussurros o primeiro número do musical South Pacific, que estreou na Broadway em abril, com casa lotada. "É a primeira vez que posso criar situações íntimas no palco", diz o barítono que, numa dessas voltas da vida, virou ator de musical e concorre, no domingo, ao Tony Awards, o Oscar do poderoso teatro nova-iorquino. Em 11 anos de carreira, durante os quais interpretou personagens como o Conde d’Almaviva (As Bodas de Fígaro, de Mozart), Escamillo (Carmen, de Bizet) e Lescaut (Manon, de Massenet), Szot (sobrenome polonês que se pronuncia ‘chót’) sempre teve de projetar a voz até o fundo da platéia apenas com o auxílio de sua técnica e da acústica do teatro. Afinal, no mundo da ópera, aparatos tecnológicos como microfones estão fora de questão. "Poder usar microfones é ótimo. Agora não tenho a preocupação de ter de ser ouvido e de competir com o som da orquestra", explicou, em entrevista ao Link em Nova York. Durante os ensaios do musical, no qual interpreta o protagonista Emile de Becque, Szot resistiu: "Ele nunca havia se apresentado numa situação de som amplificado e, como sua experiência era em ópera, estava desconfiado", diz o engenheiro Scott Lehrer, também indicado ao Tony pelo trabalho de engenharia de som em South Pacific. "Conversamos sobre a estética sonora dos musicais da Broadway e expliquei que eu tinha de aproximar sua voz às dos outros atores. Não tinha como ele cantar sem microfone", diz. Após uma semana, Lehrer ainda estava insatisfeito com a captação dos tons mais baixos de sua voz. Assim como com os demais atores, o engenheiro instalara dois microfones na cabeça de Szot. Se um falhasse, haveria outro. "Geralmente, isso nos garante a melhor e a mais bonita qualidade sonora. Mas, no caso de Szot, os graves vêm tanto da cabeça quanto do tórax. Foi então que decidi colocar um terceiro microfone em seu peito", conta Lehrer. Foi a primeira vez que fez isso em sua carreira como engenheiro de som, iniciada nos anos 70. "Assim que terminou o ensaio, Paulo veio até a mesa de som com um enorme sorriso no rosto e disse ‘agora posso ouvir a minha voz’", conta. "Desde então ele se sentiu confortável para experimentar mais. Em ‘This Nearly was Mine’, ele literalmente sussurra para a platéia. É uma das melhores performances vocais que já ouvi num teatro", afirma Lehrer. Além de lhe dar mais liberdade, os microfones garantem a Szot que tenha voz para as oito sessões semanais de South Pacific, em cartaz no Vivian Beaumont Theatre (Lincoln Center). "No começo fiquei assustado com o número de shows. Na ópera nos apresentamos no máximo três vezes por semana", diz Paulo. O musical também tem dado ao ator/cantor a chance de desenvolver sua habilidade dramática, principalmente em relação à espontaneidade e à construção aprofundada de seu personagem. "Há cantores de ópera que também são bons atores, mas não somos treinados para a dramaturgia. Estou curtindo a experiência." A premiação do Tony, no próximo dia 15, está sendo aguardada com ansiedade pelos engenheiros, designers e técnicos de som. É a primeira vez, em 60 anos de história do Tony, que o maior prêmio do teatro americano terá uma categoria dedicada ao som. "Diferentemente do que acontece com a iluminação, a cenografia e os figurinos, as pessoas consideravam o som de um espetáculo teatral como uma área técnica sem espaço para a criatividade artística", diz Lehrer. "Foram dez anos de campanha para que fôssemos reconhecidos e também pudéssemos concorrer ao Tony." South Pacific está entre os indicados na nova categoria. Para quem assiste ao musical, o som não parece sair das 40 caixas espalhadas pelo teatro, mas sim diretamente da boca dos atores. "É um truque de mágica", explica Lehrer. "Chama-se efeito de Haas ou efeito de precedência e é baseado no retardamento do som que sai de algumas caixas em relação ao que sai de outras e em como percebemos esse som." Paulo Szot diz que nunca havia trabalhado com esse tipo de tecnologia e que, "apesar de ter visto outros musicais da Broadway, nunca havia percebido isso". "A tecnologia da engenharia de som é impressionante. Genial." Palavra de barítono.

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