O belo poema visual de Robert Frank

Mostra celebra 50 anos da publicação do livro The Americans, um dos melhores estudos sobre a população norte-americana

Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

Quando foi lançado nos Estados Unidos em 1959, The Americans, livro em que o fotógrafo e diretor de cinema Robert Frank imprimiu a visão que teve do país numa jornada de dois anos, foi criticado até como antipatriótico. A "América" que pretendia ser uma nação serena, otimista e confiante não podia ser a mesma daquelas 83 fotos em preto e branco. Mas era. Acompanhar a feitura desse clássico da fotografia do século 20 em Looking In: Robert Frank"s The Americans, exposição que celebra os 50 anos de sua publicação, é como presenciar a composição de um dos melhores estudos visuais sobre o povo mais invejado ou às vezes mais odiado da terra e descobrir em que e quanto ele se assemelha aos outros. Ainda hoje, no cinza das fotografias de Frank, como escreveu o beat Jack Kerouac na introdução do livro meio século atrás, revela-se "o verdadeiro suco rosado da espécie humana".

Looking In, em exibição no Metropolitan Museum até 3 de janeiro, acompanha o processo de produção das mais de mil impressões que Frank fez a partir dos 767 rolos de filmes que usou em viagens por mais de 30 Estados americanos, entre 1955 e 1956. Ele levou mais de um ano editando as cerca de 27 mil fotos que tirou, selecionando e construindo a sequência final. Em torno das reproduções das 83 imagens de The Americans (a maioria feita entre 1958 e 1969) Looking In exibe cartas relacionadas ao projeto da obra, 22 folhas de contato feitas a partir dos negativos originais e outros livros de Frank e artistas que o influenciaram, como os suíços Gottard Schuch e Jakob Tuggener, o húngaro André Kertész, o russo Alexey Brodovitch, o inglês Bill Brandt e o americano Walker Evans. As raízes de The Americans já eram fortes em outras séries fotográficas que Frank produziu na Europa, no Peru e em Nova York, no fim da década de 40 e início da de 50. Exemplos delas servem de prefácio ao núcleo da exposição.

COISAS QUE SE MEXEM

Frank nasceu na Suíça, em 1924, onde treinou com designers gráficos e fotógrafos antes de emigrar para os EUA em 1947. Ainda em seu país, ele criou seu primeiro livro, 40 Fotos, um volume encadernado a mão que serviria como portfólio para procurar trabalho. Em Nova York, conseguiu emprego como fotógrafo de moda da Harper"s Bazaar. Não era isso o que queria fazer e, em menos de um ano, largou a revista e foi viajar pela América do Sul e Europa. Em vez de monumentos ou paisagens, ele preferia focalizar sua câmera "em coisas que se mexem" e tinha esperança de ver suas narrativas visuais publicadas pela Life, a revista americana histórica para o fotojornalismo.

Frustrado por não conseguir publicar seu trabalho, Frank pensou em abandonar a fotografia. Então se inscreveu para uma bolsa da John Simon Guggenheim Memorial Foundation. Walker Evans, que já havia recebido patrocínio da fundação e fazia parte do seu conselho, reescreveu o pedido feito por ele apresentando-o como proposta de "um estudo visual de uma civilização" e votou a seu favor. Num Ford de segunda mão e sem itinerário predeterminado, Frank começou suas viagens pelo país, às vezes sozinho, às vezes com sua primeira mulher, Mary, e seus dois filhos, Andrea e Pablo. Nos lugares onde parava, ia a parques, bancos, cemitérios, restaurantes populares, rodoviárias e estações de trem, onde encontrasse gente comum e não chamasse muita atenção.

Para construir a narrativa que pretendia dar ao livro, ele anotava cada primeira impressão com o número do filme e da folha de contato de onde ela vinha, uma disciplina aprendida com o fotógrafo Michael Wolgensinger, na Suíça. Espalhava as impressões no chão ou as prendia com tachinhas nas paredes do seu apartamento, relacionando-as conforme os temas gerais que ia abordar - raça, religião, política, consumo. Na primavera de 1957, o trabalho tomou forma final, sintetizado e sequenciado em 85 imagens, com o título original America, America.

CADEIA

Frank negociou a publicação do livro em Paris, com o editor Robert Delpire e, juntos, eles eliminaram mais duas fotos. Em setembro daquele ano, ele conheceu Jack Kerouac em Nova York, pouco depois de o escritor ter publicado On the Road - Pé na Estrada, e pediu que ele escrevesse a introdução do seu livro. A obra foi publicada na França, em 1958, com o título Les Américains mas, por desacertos com Delpire, sem o texto de Kerouac. A introdução aparece na primeira edição americana, publicada por Barney Rosset, da Grove Press, em 1959. Comparando o trabalho visual de Frank ao de um poeta com as palavras, Kerouac escreveu: "Ele sugou um poema triste diretamente da América para o filme."

O que o fotógrafo retratou em imagens muitas vezes granuladas e com o foco em pontos inesperados foi um país dividido pelo racismo, pela desigualdade social e econômica, desatendido por seus políticos, amortecido pela cultura de consumo e à beira da explosão social que ocorreria nos anos 60. Ele mesmo vivenciou isso na sua passagem por McGehee, em Arkansas, ao ser detido pela polícia estadual aparentemente por dirigir um carro com placa de Nova York e ser um estrangeiro malvestido. Em carta a Walker Evans, ele contou que foi levado para a cadeia, onde registraram suas impressões digitais, foi interrogado por mais de 12 horas e forçado a assinar seu nome sob a identificação de "criminoso".

Alguns dias depois ele registrou a foto número 18 do livro, intitulada Trolley - New Orleans, um claro exemplo da segregação e disparidade social americana na época. Emoldurados pelas janelas do bonde que ocupam, os passageiros são vistos em ordem de gênero, idade e raça - homem, mulher, velhos e jovens, brancos e negros. Ironicamente, a foto é precedida no livro pela de uma velha bandeira dos EUA alçada em Jay, no interior do Estado de Nova York, no 4 de julho, dia da independência do país onde se pregava que "todos os homens são criados iguais".

O estilo aparentemente intuitivo e a escolha dos temas em The Americans foram inovadores na fotografia documental e o livro é considerado um dos mais importantes publicados após a 2ª Guerra Mundial. Pouco depois da publicação dele, Frank trocou a fotografia pelo cinema levado pela mesma inquietação que o inspirou em The Americans. Com filmes como Pull My Daisy, de 1959 (baseado numa história cômica que aconteceu com o beat Neal Cassady e com o mesmo título de um poema escrito em 1940 por ele, Kerouac e Allen Ginsberg), e Me and My Brother, de 1968, o autor de The Americans tornou-se um dos principais diretores do cinema americano avant-garde. Nos últimos 30 anos, ele tem se dedicado tanto à fotografia, como a videoclipes e filmes independentes, polinizando uma mídia com a outra.

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