O bife pessoal de Oswaldo Aranha

Bastava ele entrar no restaurante, sempre elegante e comunicativo, para o cozinheiro fazer, sem consultá-lo, seu prato invariável: um bife malpassado, acompanhado de batatas portuguesas, arroz e farofa, que misturava antes de comer. Isso aconteceu no Rio de Janeiro, entre 1931 e 1934, quando ele era o titular do Ministério da Fazenda, no primeiro governo de Getúlio Vargas. O restaurante seria o Cosmopolita, da Lapa, apelidado de Senadinho pela clientela de políticos, mas há divergências. A casa existe até hoje, porém sem o esplendor do passado.

Dias Lopes, jadiaslopes@gmail.com,

22 Julho 2010 | 14h51

 

Falamos de Oswaldo Aranha, advogado, político e diplomata brasileiro, nascido em 1894 em Alegrete, no Rio Grande do Sul, e falecido no Rio de Janeiro, em 1960. Foi um dos principais articuladores da Revolução de 1930, que pôs Vargas no poder, com quem teve afinidades e conflitos. Em seguida, tornou-se ministro da Justiça, deputado constituinte, embaixador do Brasil nos EUA, presidente da Assembleia da ONU que criou o Estado de Israel.

 

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Receita do filé à Oswaldo Aranha

 

Entretanto, apesar da longa folha de serviços ao Brasil, Oswaldo ficou mais conhecido pelo bife malpassado. Inicialmente de alcatra, virou de filé mignon. Agora, é oferecido assim nos cardápios de oito em cada dez restaurantes do Rio de Janeiro e pelo País afora. Por que trocou a carne? A alcatra precisa ser trabalhada antes do uso, ter os nervos retirados e separados em duas partes, aproveitando-se a menor, mais macia. Já o filé é "limpo" por natureza e invariavelmente tenro, bastando cortá-lo e utilizar.

 

Como gaúcho e carnívoro, o criador do prato considerava o filé mignon pobre em sabor e talvez não aprovasse a mudança. Enfim, houve uma segunda releitura na sua receita: incorporou-se alho. Também não receberia o beneplácito de Oswaldo. "Meu avô não gostava de alho", afirma Zazi Aranha Corrêa da Costa, a neta mais velha dele, residente em São Paulo.

 

Ela e os primos do Rio também garantem que o prato não surgiu na cozinha do Cosmopolita, e sim no extinto restaurante Minhota, da Rua São José, no centro velho carioca. Logo as demais casas frequentadas por Oswaldo incorporaram a receita original. Primeiro foi o Cosmopolita. Depois, o Lamas, quando funcionava no Largo do Machado, no Catete, atualmente na Rua Marquês de Abrantes, Flamengo.

 

Oswaldo Aranha despachava de manhã com Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, e almoçava ao lado. "Até hoje dizem que o filé do Lamas é um dos melhores do Rio", diz Zazi. Em São Paulo, ganhou clientela o preparado diariamente no bar e restaurante São Cristóvão, da Rua Aspicuelta, Vila Madalena. A casa o elabora desde a inauguração, há dez anos. Além disso, realiza no mês de agosto um festival dedicado à receita.

 

O evento abre com o clássico filé à Oswaldo Aranha, servido ao longo da primeira semana. Nas três seguintes, prepara sucessivamente releituras do prato. Há o Oswardo (com o erre caipira no lugar do ele) Aranha de lombo marinado e grelhado, acompanhado de farofa rica de milho, batatas rústicas com alho, arroz branco e pimenta biquinho. Segue-se o Oswaldo Aranha de picanha grelhada, com farofa de alho, maionese caseira e arroz branco.

 

O festival se encerra com o Oswaldo Aranha de cordeiro: carré ovino, arroz de brócolis, batatas rústicas com alho e farofa da casa. Abriu-se o leque das variações.

 

Sucedeu o mesmo com o bife à milanesa dos argentinos, levado ao forno para gratinar com molho de tomate, presunto, queijo mussarela. Chamado originalmente de milanesa a la napolitana, foi criado na década de 40. Atualmente, tem diferentes receitas. Entre elas está a milanesa a la diablo (com pancetta e pimenta preta), a milanesa de peceto (lagarto) com morrones agridulces (pimentões agridoces) e, para delírio dos vegetarianos, a milanesa de soya (soja), com arroz integral.

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