O big-bang da vinha duriense

Estive duas vezes na Quinta do Vale Dona Maria, a vertiginosa propriedade duriense (adoro essa palavra, quer dizer originário do Douro, com traços romanos do seu nome latino, Durius) de Cristiano e Joana van Zeller (no Porto se diz: os van zellerés). Na primeira visita, no auge do verão, em agosto, as videiras no estágio final de maturação de suas uvas para a colheita, o calor era brutal, algo que só sentira em Sevilha, igualmente num agosto, décadas atrás. Não há sombra, ventilador, ou brisa que atenue. E só pedra e sol, sol e pedra, implacáveis para os miolos humanos e necessários no seu rigor para a doçura e qualidade única das uvas na região.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2012 | 02h08

Foi bom me sentir uma videira, ver por que é necessário deitar raízes profundas em busca de nutrientes e alento. Viver tudo aquilo da paisagem árida, que, logo em seguida, relaxa em beleza, na exuberância da colheita e no festivo e transformador da produção. É uma espécie de véspera, o mundo esperando a explosiva e decisiva cantoria das matinas de setembro, quando toda a tensão do ano, desde o adormecimento do inverno ao brotamento da primavera, aos riscos de doenças, de geadas, de granizo, passou. E eis a uva!

Cristiano é um dos maiores enólogos portugueses (e não estou brincando com seu tamanho), nascido quando ainda era da família a velha propriedade senhorial da Quinta do Noval, com todas aquelas ramificações que tornam parentes ou interligados os portugueses do norte ligados ao vinho, com origem antiga, holandesa ou inglesa, remotíssima. E, apesar de caçador de perdizes dedicado e apaixonado, capaz de falar com intensidade ameaçadora sobre armas, cães perdigueiros e a emoção do tiro certeiro, é um homem cordial, bonachão e sorridente. Algumas horas passadas com ele são um curso de vinho e de humanidades. Em resumo: um grande companheiro de mesa.

Nessa primeira visita me hospedei na Quinta, tivemos almoço al fresco (ironia, o vento era morno), e ele contou que no verão passado, bem lá no fundo do vale, a temperatura atingiu 50°C, o ar condicionado do carro estourou e Cristiano teve que derramar água sobre a cabeça até conseguir chegar ao abrigo da cantina, ou morreria.

O Douro é assim. Urbanoides como eu, se algum dia sonharmos produzir vinhos, precisamos cair na real, não é para qualquer um. Uvas e enólogos precisam ser resistentes. Nessa primeira visita provei todos os vinhos das suas diversas propriedades e gamas (leia ao lado), os VZs e Van Zellers, os CVs (Curriculum Vitae e não Cristiano van Zeller, ressalta) e os Vales Dona Maria. Foi um curso que merecia diploma.

E o diploma veio em setembro, quando voltei, privilegiado convidado com mais quatro colegas do jornalismo de vinho brasileiros e a suma da imprensa de vinho portuguesa para uma inédita prova vertical de todos os Quintas do Vale Dona Maria. Cristiano fez a prova mais impecável que já vi, porque teve a honestidade incrível de não abrir nenhum vinho antes. Sentou-se conosco e submeteu-se às surpresas e aos riscos das decepções ali em público, degustando na hora o que tinha acontecido na sua vida engarrafada. Abriu na nossa frente cada garrafa, todas de sua reserva pessoal, e foi apreciando conjuntamente com o público exigente. Um atrevimento corajoso, mas que teve, como era de se esperar, a pontaria certeira do caçador. Os vinhos estavam dignos, elegantes, extraordinários. Alguns, obviamente, como grandes antenas do terroir, melhores, refletindo suas safras (leia ao lado). Num annus mirabilis para mim, em que provei mais grandes vinhos que o habitual, esse foi um dos maiores privilégios. Senti-me gente grande.

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