O biscoito do imperador

Ao longo de cinco séculos, Toraya fez doces para mais de 18 gerações de japoneses

02 de setembro de 2010 | 09h38

Lembranças felizes. Lembro- me bem daquele dia, há uns 25 anos, quando voltei para casa toda feliz porque um biscoito meu foi escolhido para ser degustado pelo imperador Hirohito. À época, era só o contentamento de uma simples doceira, recompensa de um dia de trabalho.

 

O trabalho foi ter feito mais de 30 biscoitos, assando um por um em um molde de ferro fundido, sobre o fogo a gás, queimando muitos dedos e massa até chegar a um único exemplar, em que o desenho de uma flor de crisântemo (símbolo da família imperial japonesa) aparece em relevo - esse desenho deveria aparecer perfeito em todo seu contorno, e a cor ser uniforme na superfície de 10 cm e com finíssima espessura.

 

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É o que chamamos de sembei: um biscoito fino, redondo, feito de farinha, açúcar e água. Algo extremamente simples, mas o preferido do imperador. Dizia-se que ele degustava um todas as noites depois do jantar, para acompanhar seu chá-verde. O ritual era quebrar ao meio e dividir com a imperatriz Nagako.

 

Eu ficava na cama imaginando ele quebrando meu biscoito e dividindo com a mulher, sorrindo. Mal sabia eu que antes de entrar na boca do imperador esses biscoitos passavam por dezenas de pessoas. Eram ainda escolhidos e experimentados (sim existiam ainda os provadores ou, como se diz em japonês, dokumi, os experimentadores de veneno).

 

Mas, na verdade, ser a doceira oficial da família imperial japonesa não passava de um detalhe, é mais uma anedota. Para mim, o Toraya é muito mais importante. A casa mantém técnicas e o savoir-faire de séculos, fazendo doces para mais de 18 gerações de japoneses.

 

Hoje, todos os ingredientes usados pelo Toraya são orgânicos, locais, artesanais e autossustentáveis. A casa tem uma rede de fornecedores há séculos - alguns tendo-a como único cliente. Mantém qualidade e padrão sem igual, fazendo sobreviver técnicas artesanais de mais de cinco séculos, passadas de geração para geração. O Toraya, com seus 500 anos, é a empresa mais moderna que conheço.

 

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