O Bola Preta volta a ter sede

O 13 continua a marcar a história do cordão, que desfila desde 1918

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

O número 13 carrega duplo significado para o Cordão da Bola Preta - ora é sinônimo de sorte, ora de mau agouro. No dia 13 de dezembro de 2007, foi a leilão a tradicional sede do bloco carioca, na Avenida 13 de Maio, número 13, Cinelândia. Aos 90 anos, o Bola virava sem-teto. Já no dia 13 de fevereiro de 2010, sábado de carnaval, desfilará pela Avenida Rio Branco na maior felicidade: está de casa nova, e cheio de planos.

Instalado num espaço de 800 m² na Rua da Relação, número 13 (mais uma coincidência), na Lapa, cedido pelo governo do Estado, o Bola, que detém o título de patrimônio cultural da cidade, continua endividado. Mas agora tem onde realizar os bailes e shows que, se tudo der certo, garantirão seu sustento. Os débitos (trabalhistas e com a prefeitura, já que o IPTU deixou de ser pago por cinco anos) chegam a R$ 400 mil, conforme o presidente, Pedro Ernesto Marinho. Ele promete que vai quitar as dívidas com os 13 (opa!) ex-funcionários que teve de dispensar para não agravar ainda mais a situação financeira do Bola.

Administrador aposentado, frequentador do Bola desde 1971, quando era estudante secundarista, Marinho quer atrair o público das casas da Lapa. "Vamos abrir quatro noites por semana. Em fevereiro, vai ter baile pré-carnavalesco e infantil e bailes antigos, como o do sarongue, das odaliscas e do preto e branco (as cores do Bola)", planeja.

A inauguração da nova sede foi no dia 18, com a presença de apaixonados pelo Bola, como a cantora Maria Rita - ela ocupa o cargo de madrinha, que já foi de Elizeth Cardoso. A falta de dinheiro é facilmente explicável: são apenas 20 os chamados sócios pagantes, que desembolsam R$ 25 por mês para não deixar o Bola morrer. Um deles é o compositor João Roberto Kelly, autor de marchinhas carnavalescas como Cabeleira do Zezé, Mulata Bossa Nova e Maria Sapatão. Ele lançou seus grandes sucessos nos bailes do Bola.

Outro é o jornalista Sergio Cabral, pai do governador do Rio, que foi determinante para a aquisição da nova sede, em regime de comodato (o imóvel pertence à Riotrilhos, empresa da Secretaria Estadual de Transportes). São cinco anos de cessão, renováveis. "Recebi um e-mail do Pedro e repassei ao governador", diz Cabral pai. "Sempre fiz questão de pagar e vou continuar sempre. O Bola é uma tradição carioca, reflete nosso espírito."

O Bola Preta nasceu cordão, em 1918, porque, supostamente, uma corda era usada para separar os foliões de quem mais estivesse na rua (a explicação é controversa; há quem diga que a corda jamais existiu). É um dos últimos remanescentes desses grupos, que começaram a surgir no Rio a partir da segunda metade do século 19. Hoje, trata-se de um bloco de carnaval que reúne 1,5 milhão de pessoas.

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