O Bossa da Pato

O cartão de visitas de Filipa Pato diz: "Vinhos autênticos, sem maquilhagem". Está na cara. Na cara da produtora de vinhos portuguesa, que não usa, ela mesma, nenhuma maquiagem. "Não uso. Não usei nem no dia do meu casamento", e ri bastante.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2012 | 03h10

Filipa, filha do produtor português Luis Pato, ri bastante e fala como uma garota sobre assuntos bem adultos: as novas aquisições da sua vinícola, que vem comprando vinhas desde que a crise financeira derrubou o preço da terra na região e o processo para adequá-las a seu padrão, o que leva dois anos.

Ao comprar um vinhedo, ela trata de recuperar as vinhas de Baga, a uva que deu fama a seu pai e que encontra sua melhor expressão ali. Se plantada em um terreno mais aqui, fica mais assim. Se plantada ali, muda um tanto. Mas por ser menos conhecida e ter fama de difícil, a Baga não é muito valorizada. Então os produtores vinham plantando Shiraz, Pinot ou Chardonnay. "Fico preocupada que a Baga tenha decaído de 80% para 30% de área plantada na Bairrada."

Mas antes ainda de recuperar as vinhas de Baga, ela precisa cuidar da terra. E na hora de falar desse cuidado, o papo envereda para o assunto da vez. Vinhos biológicos (termo português para orgânicos), biodinâmicos ou naturais? Para Filipa, nenhum dos três. "Uso o método tradicional." Nada de herbicidas, nem desfolhantes, agrotóxicos nem pensar, mínimo de sulfito. Os aliados no cultivo? As ervas que crescem entre as vinhas, a brisa atlântica...

Família. A Baga, então, Filipa herdou do pai. E a seu filho caçula ela legou outra uva, essa branca. Filipa conta a história assim: "A uva deste vinho que vamos tomar (Bossa branco) tem dois nomes: no norte de Portugal, é Maria Gomes. No sul, Fernão Pires. Quando engravidei do meu segundo filho, se fosse menina, seria Maria. Se fosse menino, Fernão."

Nasceu menino. Fernão é irmão de Francisco. Eles são filhos de William Wouters, o marido, que, por sua vez, é sommelier. Dessa maneira, veja só, quando fala de vinhos, Filipa está falando também da família. E quando ela fala da família, está falando de vinhos. E como ela fala ou de vinhos ou de família, está sempre a falar de vinhos e da família. Pois!

Aos vinhos então. Dois deles estão na recém-publicada lista Portugal Top 50 2011 de Julia Harding no site de Jancis Robinson: o Calcário Tinto 2010 Bairrada e o FP 2011 Vinho Regional Beiras. Os nomes das linhas, aliás, Filipa mudou. Agora é Bossa e Nossa. "Simplifiquei! Quando se tem filhos, aprendes a focar", explica.

Mas simples não é simplista. E Filipa está criando um vinho fortificado de Baga. "Chamei o Dirk Niepoort para fazermos um porto que não é porto, mas um tinto fortificado de Baga. Nosso interesse é mostrar a Baga, a Bical, Fernão Pires, etc.", diz, com orgulho e preocupação por suas uvas. Ou seria por sua família? Ou ambos? Ambos. /LUIZ HORTA E HELOISA LUPINACCI

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