O Brasil está sendo resgatado nas ruas

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

José Matias-Pereira*, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 22h00

Os brasileiros, numa clara demonstração de que estão dispostos mudar o País, voltaram às ruas nesse domingo em mais de 200 cidades em todos os Estados e no DF. Esses movimentos espontâneos, equidistantes de partidos políticos e sindicatos, se apresentam como o mais importante fenômeno da história política do Brasil nas últimas décadas. Somente nos primeiros oito meses deste ano, foram para as ruas protestar cerca de 6,5 milhões de brasileiros, sendo 2 milhões no ato de domingo, 1,5 milhão em 12 de abril e 3 milhões em 15 de março. Essas manifestações emparedaram os movimentos sociais, que se encontram sem capacidade de ação, e que vinham sendo tradicionalmente conduzidos pelo Partido dos Trabalhadores, sindicatos e centrais sindicais, em grande parte, financiados com recursos públicos. 

Esse extraordinário fenômeno político traz a seguinte pergunta: o que está motivando a população brasileira a ir às ruas protestar? Observa-se que os pontos em comum residem na determinação dos manifestantes de protestar contra o governo da presidente Dilma Rousseff, pedindo a sua renúncia, o impeachment ou a cassação da chapa Dilma-Temer, bem como exigir o fim da impunidade e da corrupção. Mas esta é apenas a parte visível do iceberg dos problemas políticos-policiais, econômicos e sociais do Brasil, que levaram os governos petistas a conduzir o País para uma profunda crise institucional.  

Se sabe que economia e a política andam sempre juntas, de mãos dadas. Quando ambas estão indo muito mal, como ocorre agora no Brasil, inevitavelmente os seus efeitos irão afetar o nível de credibilidade dos governantes e dos políticos, aumentando, também, a desconfiança do mercado e dos investidores. Essa crise se amplificou na medida em que a ela se agregou um cenário de corrupção institucionalizada dentro da administração pública, em particular, na Petrobrás, que estão sendo reveladas diariamente pela Operação Lava Jato. A crise é resultado da convergência simultânea de inúmeros erros cometidos pelos governos petistas nos últimos anos: incompetência na condução da economia, má gestão pública, aparelhamento do Estado, intervencionismo por motivações eleitoreiras, desperdícios, falsas promessas, engodos, mentiras, e corrupção, muita corrupção. A perda acelerada de popularidade da presidente Dilma, motivada por esse cenário de terra arrasada, é um fenômeno que, além de previsível, veio para ficar.

É oportuno ressaltar que as revelações da Lava Jato trouxeram à tona a existência de uma corrupção institucionalizada dentro da administração pública, notadamente na Petrobrás, pela arrecadação de propinas, com a participação de empresários e dirigentes de grandes empresas nacionais, para abastecer os cofres e as campanhas políticas de partidos políticos que integram a base de apoio do governo Dilma (PT, PMDB e PP). A população, por sua vez, aguarda com expectativa e ansiedade a deflagração da próxima fase da Lava Jato, que trata dos processos que serão abertos no STF contra políticos com mandatos (que possuem foros privilegiados), bem como em relação ao ex-presidente Lula. Fica evidenciado que a repulsa da população em relação a existência de corrupção endêmica e desenfreada e a impunidade tem contribuído para manter a chama acessa dos protestos. Merece ser destacada, nesse contexto, a recente pesquisa do Datafolha, constatando que 85% dos manifestantes que estiveram na Paulista no protesto de domingo acham que a presidente deve renunciar, e para 82% ela deve sofrer impeachment. A reprovação da presidente, que na última pesquisa do instituto foi de 71%, atingiu 95% entre os manifestantes. 

Encerradas as manifestações no início da noite de domingo, o governo, numa demonstração clara de que se encontra acuado e incapaz de reagir diante da dimensão da crise, emitiu uma nota lacônica, na qual avaliou que os protestos ocorridos em diversas cidades foram realizados "dentro da normalidade democrática". Para mostrar a contradição, foi realizado um churrasco na mesma data das manifestações, do qual participaram algumas centenas de militantes do PT, centrais sindicais e movimentos sociais, que mostraram a face bélica dos apoiadores do governo Dilma, em frente ao Instituto Lula, em SP, gritando palavras de ordem em defesa de Dilma-Lula, e atacando os "coxinhas" que estavam se manifestando de forma democrática nas ruas.   

As manifestações confirmam que foi efêmera a "alegria" da presidente Dilma, veiculada pela mídia, após o acordo feito "na calada da noite" com o presidente do Senado, Renan Calheiros, que alinhavou uma contraditória "Agenda", para desviar o foco da crise e reduzir o risco do seu impeachment. A exibição nas praças públicas dos bonecos da presidente vestida de "irmã metralha" e do ex-presidente Lula com roupa de presidiário e a inscrição 13-171 evidenciam que a marca da "corrupção" já está grudada de forma indelével em ambos. Por sua vez, faixas e apoios mostram que os brasileiros nomearam o juiz Sérgio Moro como herói nacional, e que estão depositando suas esperanças de mudanças nas instituições PF, MPF, e em especial, na Justiça. 

Constata-se, assim, que a população está resgatando o Brasil nas ruas, refutando acordos políticos espúrios feitos pelas "elites políticas", exigindo o fim da impunidade e que ninguém fique acima da lei. Que governantes e políticos incompetentes, temerários, corruptos e pouco comprometidos com os interesses do povo sejam, dentro dos parâmetros constitucionais, afastados do poder.

* José Matias-Pereira. Economista e advogado. Doutor em ciência política (área de governo e administração pública) pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, e Pós-doutor em administração pela Universidade de São Paulo. Professor de administração pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília

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