O brilho e a sombra de uma companhia

Livro sobre o teatro de Sandro Polônio e Maria Della Costa redimensiona a cena moderna brasileira

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

16 Novembro 2009 | 00h00

A cada vez que um pesquisador atento e rigoroso se debruça sobre a História, sempre uma construção, e traz à tona elementos desconhecidos ou simplesmente esquecidos, transmuta-se nossa visão do passado e, por extensão, a compreensão do presente. Uma ação "iluminadora" sobre o palco brasileiro do século passado é o que faz a professora Tânia Brandão, crítica teatral e doutora em História Social, por meio de cuidadosa pesquisa iniciada em 1992 sobre o teatro brasileiro moderno, que resulta agora no livro Uma Empresa e seus Segredos: Companhia Maria Della Costa.

Editado pela Perspectiva, com texto centralizado e notas nas laterais das páginas, gráficos, fotos e fichas técnicas de espetáculos, será lançado hoje, em São Paulo, na Livraria Cultura, em noite que contará com a presença de Maria Della Costa. Aos 83 anos, elegante, bonita e muito ativa, a atriz não poderia estar ausente. Celebra o lançamento (leia na página 3) como uma redenção - justa. Mas a abordagem da historiadora, faz mais do que "justiça" à trajetória da atriz e de sua companhia.

Nesse livro, Tânia Brandão disseca o projeto de modernização do teatro brasileiro desde às origens do movimento na Europa, passando pelo "recorte" que chega ao solo nacional, sua sedimentação, a partir de 1948, até a derrocada, na década de 70, com a dissolução das companhias e o retorno ao teatro de estrelas, em outra realidade. Toma como divisor de águas a estreia de Romeu e Julieta, primeira montagem de Shakespeare no País, em 1938, pelo Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno. E, numa "operação moderna", desloca o marco inaugural há muito aceito, a estreia "estelar" de Vestido de Noiva, em 1943, para colocar em seu lugar um movimento coletivo, no ano de 1948.

Ressalte-se que o volume, de 456 páginas, nada tem de laudatório com relação à "empresa" do título. Claro, o Teatro Popular de Arte, companhia fundada em 1948 por Maria Della Costa e seu marido, o empresário Sandro Polônio, com a estreia de Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, é sim o objeto de estudo em foco; um dos objetivos da historiadora é, evidentemente, redimensionar a contribuição dessa empresa à modernização da cena - a mais longeva companhia estável de sua época, só tendo encerrado sua atividade em 1974 -, não devidamente valorizada no seu tempo, entre outros motivos pela sombra lançada sobre ela por outra empresa contemporânea, o Teatro Brasileiro de Comédia.

A proposta por si só seria mais do que louvável. Afinal, entre outras coisas, a companhia construída pelo casal - Sandro Polônio, sobrinho da atriz Itália Fausta, era também ator e excelente iluminador - realizou a primeira montagem profissional de Brecht no Brasil, da peça A Alma Boa de Setsuan; encenou Büchner (Woyzeck), Sartre (A P... Respeitosa), Gorki (Ralé), Shakespeare (As Alegres Comadres), Plínio Marcos (Homens de Papel), Guarnieri (Gimba).

Da Itália, a dupla trouxe, do Piccolo Teatro de Milão, o cenógrafo e diretor italiano Gianni Ratto, que dirigiu o espetáculo de inauguração, em 1954, do Teatro Maria Della Costa, por eles construído, na época o melhor edifício teatral da cidade. Levaram à cena a primeira montagem de A Moratória, de Jorge Andrade, na qual Maria deixou o protagonismo para a jovem Fernanda Montenegro, atitude de exceção entre atrizes "donas" de companhia. Tudo isso é história sabida. O que Tânia faz é valorizar tal trajetória como parte de um projeto maior, com suas conquistas e percalços.

Rigorosa, começa por definir o conceito de moderno localizando-o na crise do sujeito no pensamento ocidental. Vincula com clareza a passagem do teatro de "divas" e do "ensaiador" para a era moderna - em geral definida como a da valorização de todos os elementos da cena, harmonizados por um diretor - como reflexo de uma mudança radical de percepção do mundo. "O diretor não é uma subjetividade que se sobrepõe às demais. Ao contrário, vale uma certa despersonalização - ele é uma passagem, reúne em sua leitura múltiplas leituras", escreve Tânia. E demonstra que o movimento não leva à criação de uma nova forma, mas à multiplicidade delas, ruptura de modelos. Nesse sentido o estudo lança luz até sobre a cena atual.

Em contraponto, analisa o teatro da França e da Itália nas décadas de 30 e 40 - o primeiro país, centro de influência cultural da época; o segundo, pátria exportadora de diretores para o Brasil - e mostra que a modernização dos palcos nacionais se deu por influência de um "recorte" do moderno, transmutado em modelo. Num país onde acervos bem cuidados são raros, traz à tona documentos valiosos, como o caderno de montagem de Romeu e Julieta, com desenhos e anotações de Itália Fausto, ou, outra preciosidade, um livro do norte-americano Stanley Applebaum, que em 1952, escreveu sobre o teatro brasileiro da época. Porém a fonte mais utilizada é mesmo a imprensa, na qual o crítico do Estado, Décio de Almeida Prado, tem papel de destaque, sendo definido até mesmo como "eminência parda positiva", pois é possível detectar, em outras críticas, o reflexo de suas ideias, aceitas ou combatidas. Livro publicado, ela já se dedica a outro, sobre Itália Fausta. Na ainda pouco estudada cena teatral brasileira há muitos artistas na penumbra, aguardando por quem lance luz sobre sua contribuição à cultura.

Serviço

Uma Empresa e Seus Segredos - Companhia Maria Della Costa. De Tania Brandão. Perspectiva. 456 págs. R$ 60. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, 3170-4033. Hoje, 18h30

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