O campeonato é ruim ou é bom?

Depois das últimas rodadas, a pergunta parece até meio sem sentido. Claro que o campeonato é bom. Basta ter assistido ao tenso Botafogo 3 x 2 São Paulo ou a Flamengo e Goiás, num Maracanã maravilhosamente lotado, bom jogo apesar do 0 x 0. Isso para não falar na luta contra o rebaixamento, com suas emoções particulares e o show de recuperação do Fluminense. No domingo, o Botafogo também foi bravo, o que torna possível o impensável de rodadas atrás, a possibilidade de os dois clubes cariocas permanecerem na Primeira Divisão.

Luiz Zanin, luiz.zanin@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

Quem pode dizer, em sã consciência, que pintou o campeão após o vacilo do Flamengo? É verdade, o São Paulo, que havia perdido do Botafogo no final da tarde de domingo, dormiu a noite ainda líder do campeonato. Depende só das suas pernas para conquistar o quarto título consecutivo. Mas quem garante que não irá tropeçar, como já fizeram seus concorrentes? O fato é que o título está entre quatro candidatos, cada qual, é verdade, com possibilidades diferentes. Tanto nos cálculos dos matemáticos quanto nas mais abalizadas projeções feitas em mesas de botequins, o Tricolor paulista é dado como favorito. Só que, nesse campeonato louco, muita coisa ainda pode mudar nas duas últimas rodadas. Até o Palmeiras e Inter, já dados como cartas fora do baralho, renasceram. Como azarões, sem dúvida, mas vivos.

Até aí tudo bem. Mas muita gente (eu, inclusive) não se contenta com a indefinição, ou a emoção (que dá rima), como conceitos absolutos de qualidade futebolística. Quem pensa dessa maneira sente falta de alguma coisa. Tem-se falado muito, por exemplo, em qualidade técnica declinante. Qual foi o último grande time brasileiro a ganhar o campeonato por pontos corridos? O Cruzeiro de 2003, o Santos de 2004, uma das equipes do São Paulo que venceram nos últimos três anos? Daria para comparar essa suposta grande equipe com o futuro campeão brasileiro de 2009, que pode ter aproveitamento de pontos inferior a 60% pela primeira vez na história? São temas para debates infindáveis.

As análises, ou meros palpites, têm se valido de comparações com outros campeonatos do mundo e o Brasil tem se saído sempre muito mal, como se pusessem lado a lado um cavalheiro de terno Armani e o Jeca Tatu, aquele personagem de Monteiro Lobato, pobre como ele só, cheio de lombrigas e bichos do pé.

Tá legal, eu aceito o argumento, como canta mestre Paulinho da Viola, vascaíno feliz da vida. Mas não acho certo comparar o futebol brasileiro com o europeu sem levar em conta alguns detalhes. Mesmo com toda a política de importação, o futebol europeu foi e continua sendo um embuste, pois é incapaz de gerar lá mesmo os craques de que necessita. Mesmo com a importação maciça, tirando alguns clássicos (Real Madri x Barcelona, Inter x Milan, Chelsea x Manchester, etc.), quem aguenta seguir aquela chatice?

O futebol brasileiro atual deve ser considerado fraco não quando comparado ao europeu, mas sim quando medido em relação ao que ele próprio poderia ser. Essa, a nossa melancolia, imensa como a do Jeca num final de tarde interiorano. Dá dó imaginar o belo campeonato que poderíamos ter, apenas houvesse por aqui um pouco mais de organização, orgulho próprio e capital. O futebol brasileiro só é ruim quando medido a si mesmo. Comparado, não a um ideal utópico, mas ao que de fato poderia ser, e já foi um dia.

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