O capelão e o veterano

O imã Khalid Latif, capelão do NYPD, é sempre retirado da fila para revista em aeroportos; o cidadão negro Najja lowden tem em comum com ele o fato de ser perseguido por sua aparência

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2017 | 04h00

Um dos momentos mais intensos da passagem do Papa Francisco pelos Estados Unidos, em setembro de 2015, foi a cerimônia multirreligiosa no subterrâneo memorial para as vítimas do 11 de setembro, no sul de Manhattan. Depois de fazer uma reflexão sobre tolerância e solidariedade na tragédia das torres gêmeas, um imã sentou-se à esquerda de Francisco.

O imã era Khalid Latif, o mais jovem capelão a servir no NYPD, a força policial de Nova York, que é a maior dos Estados Unidos. O NYPD tem 34 mil oficiais uniformizados e é talvez o departamento mais etnicamente diverso do país. Tem ao todo nove capelães, representando judeus, católicos, ortodoxos, várias denominações protestantes e muçulmanos.

O imã Khalid Latif é o segundo clérigo muçulmano na história da polícia de Nova York, nomeado em 2007, aos 24 anos. Ele é filho de imigrantes paquistaneses e dirige o Centro Islâmico da New York University. Latif é um palestrante requisitado em instituições em todo o país e viajou em nome do Departamento de Estado ao exterior. Conhece Barack Obama e participou de eventos com o Dalai Lama.

No apartamento onde mora, no conjunto de prédios ocupados por acadêmicos da NYU, Latif foi acordado um dia pela visita de dois agentes do FBI. Esta e outras histórias ele conta num dos episódios de A Vida Secreta dos Muçulmanos, série exibida desde novembro em múltiplas plataformas e dirigida pelo premiado documentarista Joshua Seftel, um judeu. Seftel passou cinco anos buscando fundos para filmar. A estreia da série de perfis de alguns dos 3,3 milhões de muçulmanos que vivem nos EUA adquiriu outro peso ao final de uma campanha presidencial marcada por promessas como criar registro obrigatório para muçulmanos.

Na semana passada, numa entrevista à rádio pública, Latif recordou a primeira de várias visitas do FBI. Os agentes começaram a fazer perguntas genéricas. Um responsável pela segurança da residência universitária pediu que se retirassem. No dia seguinte, os agentes aguardavam Latif na calçada e o seguiram até o campus onde ele foi interrogado por várias horas. Quando perguntou o que o FBI queria dele, ouviu a resposta: Você é bom demais para ser verdade, fique sabendo que estamos de olho.

Latif fala com grande fluência e articulação e se diz acostumado à rotina a que se submete com sua aparência – barba curta e o kufi, o chapéu muçulmano. É regularmente retirado da fila para revista em aeroportos e foi parado pela polícia inúmeras vezes dirigindo o próprio carro. Até quando, de uniforme policial, participava, em 2010, da cerimônia anual no memorial do 11 de setembro, foi interpelado por agentes federais, que levaram na hora uma espinafração da mãe de uma das vítimas do ataque às torres gêmeas.

Na semana passada, o nova-iorquino Najja Plowden passeava com o cachorro à noite num parque do Brooklyn quando foi detido por policiais. Plowden é negro e serviu o exército dos EUA no Afeganistão. Hoje é terapeuta ocupacional de alunos com necessidades especiais. Um homem branco, que também brincava com o cachorro, não foi incomodado por ser tarde da noite, reclamou Plowden. Mas ele passou a noite na delegacia, depois que seus antecedentes apontaram uma acusação, da qual foi inocentado, de usar skateboard num outro parque. Plowden tem em comum com o imã Latif o fato de que sua aparência o torna um alvo desproporcional de atenção policial mas, como alega no processo que move contra a cidade, não foi só vítima de prisão injustificada. Um dos guardas o submeteu, na cela, a um discurso sobre as virtudes da eleição do novo presidente, entre elas, a expectativa de que gente do “gueto” como ele vai perder assistência do governo.

Se o relato de Najja Plowden é verdadeiro, a rotina do imã Khalid Latif pode se tornar mais penosa.

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