O carro de Jagrená

Jagrená é uma divindade hindu que conduz um carro de trajetória errática sob cujas rodas os devotos se expõem a ser atropelados, em cultos místicos. Na metáfora famosa sobre a modernidade do influente sociólogo inglês Anthony Giddens, o carro de Jagrená alude a uma das suas consequências, qual seja, a de nos terem sujeitado aos azares da fortuna, quando perdemos domínio sobre as circunstâncias e nos tornamos vítimas de nossas próprias obras, como, por exemplo, na questão da degradação do meio ambiente e da energia nuclear.

Luiz Werneck Vianna, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 03h00

A metáfora de Giddens bem pode servir também para a crise política e social que nos assola, que por falta de ponderação reflexiva dos atores nela envolvidos – para usar uma categoria cara a esse autor – pode nos lançar nas engrenagens letais de confrontos políticos que nos devolvam o horizonte de mais uma intervenção militar. Com efeito, na ausência de uma reflexão crítica e de ações que as levem à prática por parte de partidos e de personalidades públicas influentes, quer por se terem retraído em função do pandemônio reinante, quer porque se recusaram a uma via de negociação em nome de cálculos políticos egocêntricos, os conflitos, ao não encontrarem saída pelos caminhos institucionais, tomaram o caminho das ruas.

A linguagem que as ruas podem falar por si sós, como entidade vazia de um propósito político definido, como aparenta ser o caso das manifestações ora em curso contra o PT e seu governo, somente pode ser a do protesto e da negação. Trata-se, pois, de atos orientados para exercer pressões sobre quem é externo a elas a fim de que materializem suas pretensões de se verem livres do que aí está. O paradoxo da situação está em que tais movimentações se têm mostrado refratárias à política e aos partidos, únicos personagens, salvo a hipótese de laboratório de um doutor Pardal em favor de uma intervenção militar, capazes de remover um governo que identificam como causa de nossos males.

Contudo não se encontra sem concorrência nas ruas a movimentação contra o governo do PT, que também as procura com seus movimentos sociais e com as entidades da vida associativa aparelhadas por ele. Com menor êxito, é certo, mas de modo expressivo. As ruas tornam-se palco desse cabo de guerra entre petistas e não petistas, e a partir delas já contaminam cada vez mais os lugares da convivência, como bares e até estádios de futebol e teatros.

Se alguém espirra num ônibus, e ouve de volta a voz solidária de outro passageiro que lhe deseja saúde, pode desatar nos demais passageiros reações em cascata que culminem com todos entoando o Hino Nacional, como no caso de ficção narrado em crônica de Cora Rónai. Enlaçada no nó, que a cada movimento seu ainda mais a aperta, a sociedade se crispa em ódio. Intelectuais de obra madura, poetas líricos, mesmo os humoristas, céticos por definição, desertam da reflexão e do bom senso e se atiram com gosto no terreno das paixões cegas. Falta, e se espera que não venha, a frase que ecoou nos idos da Revolução Francesa – é melhor um fim com terror do que um terror sem fim –, dando início ao desmonte da nossa democracia.

Por que tanta paixão? Por que tantas manobras, como essa tentativa de desconstrução de agências e personagens da vida republicana, confiados agora à sensibilidade olfativa de um ministro da Justiça para discriminar amigos e inimigos da ordem imperante? Pelos três anos que restam de governo à presidente Dilma Rousseff? Não paga a pena, ela não gosta de governar, sobretudo não sabe governar, como acaba de confessar ao se aplicar um autogolpe, destituindo-se dos poderes presidenciais em favor do ex-presidente Lula. Por que aspirou ao segundo mandato se Lula estava disponível para mais uma competição eleitoral em que se elegeria facilmente? Ele não poderia defender melhor o que é comum a ambos?

No entanto, questões que venham a arguir fundamentos racionais, no quadro que aí está, parecem ter perdido o propósito. Ingressamos no terreno das crenças e da fé e nos tornamos capazes, num país visceralmente capitalista como ainda é o nosso, de ignorar a inanidade de políticas econômicas que se escoram apenas na vontade política de lideranças pretensamente iluminadas – em seis meses, pontificou Lula dias atrás, teremos de volta a alegria. Alguns passos nessa falsa direção têm sido dados, conduzidos pelo imprevisto e pela pura necessidade de ganhar adesão popular contra o processo de impeachment que ameaça o mandato da presidente Dilma.

Ladeira abaixo no carro desgovernado de Jagrená, a presidente Dilma e seu partido nos levam, tangidos pelas denúncias que se acumulam contra eles no Judiciário, a processos que eles próprios não controlam. “Depois de mim, o dilúvio”, talvez sem essa Carta de 88 e suas formas de controle que se antepõem à vontade discricionária de quem sabe interpretar a vontade popular. Forças obscuras, mantidas por décadas à margem da política e da pedagogia que ela exerce sobre quem a pratica, já têm vindo à superfície em estado bruto, movidas pela esperança mítica de que “uma guinada à esquerda” traria consigo a bem-aventurança.

O caminho da esquerda, aprendemos em duras experiências, está no contínuo aprofundamento das instituições da democracia, e somente quem fabula quimeras a fim de macular nosso sistema judicial com a ignóbil acusação de agir como um Estado de exceção pode ignorar os crimes ora apurados pela Operação Lava Jato contra a República e a convivência democrática. A guinada por que a sociedade espera é a de livrar sua esfera pública das práticas deletérias que a têm feito refém de poucos e que dela se têm servido. Ela está pronta para isso, falta-lhe iluminar o caminho e pavimentá-lo com a obra de uma reforma política que permita à cidadania saltar a tempo do carro de Jagrená e se apropriar do seu destino.

SOCIÓLOGO, PUC-RIO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.