O centenário de Elpídio dos Santos

Legado do compositor inspira toda a musicalidade de São Luiz do Paraitinga

Lauro Lisboa Garcia, SÃO LUIZ DO PARAITINGA, O Estadao de S.Paulo

21 Setembro 2009 | 00h00

A bela casa de imensa porta e janela verdes, que dão para a calçada da Rua Coronel Domingues de Castro, é tão famosa em São Luiz do Paraitinga quanto a que pertenceu ao sanitarista Oswaldo Cruz, situada no alto da ladeira, do outro lado da Capela das Mercês. É da banda de cá que dona Cinira Pereira dos Santos vive serena e saudável, aos 84 anos. É ali - onde recebeu, com a peculiar cordialidade de seus pares, a reportagem do Estado, na quinta-feira - que também pinta suas telas e constrói grandes bonecos de papel machê, daqueles que caem na folia do animado carnaval da cidade. E preserva parte do acervo de Elpídio dos Santos (1909-1970), cujo centenário de nascimento seus conterrâneos vêm celebrando desde janeiro com muita música. A festa prossegue hoje com a abertura da 3ª Semana da Canção Brasileira (leia na página 5).

A série de retratos nas paredes, um bonecão com as feições alegres do compositor, vários instrumentos de corda, sopro e percussão que passaram por suas mãos multitalentosas decoram as paredes de duas salas da casa que dona Cinira herdou de uma tia aos 15 anos, pouco depois de começar a namorar Elpídio, com quem se casou e teve sete filhos, todos músicos como o pai. Uma das salas é ocupada por uma grande estante, repleta de esculturas que ele modelou em barro, tão bem conservadas quanto o vistoso e colorido casario colonial do centro histórico. São ambos patrimônios que orgulham os moradores e cativam os forasteiros.

Instrumentista, ex-integrante do grupo Paranga e diretor do Espaço da Cultura Caipira - que abriga o Instituto Elpídio dos Santos -, o filho mais novo, Paulo Celso, vai fazendo sala enquanto Vó Nira, como é carinhosamente chamada na cidade por todos, não chega. Pauleca, como é mais conhecido, conviveu pouco tempo com o pai, que morreu quando ele tinha de 4 para 5 anos. Aos 45, ele se entusiasma com os efeitos da boa fama do mais ilustre compositor de São Luiz. "Hoje tenho consciência de que a obra dele foi toda feita em cima de relacionamentos, não para ser um produto, por isso é imortal." Elpídio fazia música para presentear os amigos, os filhos (cada um tem a sua), os familiares.

Em meio a tantas histórias, o que Vó Nira não se cansa de repetir, a cada uma das muitas entrevistas que concede, é que o caráter do homem é tão importante quanto seu legado musical. "Ele era muito bom, amigo das pessoas, foi bom filho, bom marido e excelente pai", afirma. A graça, a doçura e a delicadeza das canções de Elpídio são componentes que refletem não só o que ele foi, como diz Pauleca, mas está no estado de espírito do povo luizense. Sua história é muito presente por toda parte.

Vó Nira diz que não conheceu o minucioso e brincalhão Elpídio, 17 anos mais velho do que ela, sem música. E se São Luiz do Paraitinga tem essa tradição de grande musicalidade deve muito a ele. Nisso todos concordam. Ela se lembra de muitas madrugadas, em São Luiz ou nos 15 anos em que viveram em São Paulo, em que, cansada de cuidar dos filhos pequenos, era acordada por ele, entusiasmado com uma nova canção. Tudo o que compunha submetia à apreciação dela, que sonolenta, nem prestava muita atenção, mas acabava gostando.

Conhecido como o autor de 27 canções para os filmes de Mazzaropi, Elpídio é um ícone da música caipira paulista, mas foi além dela. Dentre as cerca de mil composições que deixou (a família ainda não catalogou todas), há choro, valsa, marchinha, dobrado, maxixe, samba, cateretê, música para crianças e outros gêneros, que ele tocava nas praças, em festas.

Filho de um maestro de banda do interior, Elpídio "nasceu músico", tocava 22 instrumentos, mas procurou se aperfeiçoar, estudando em São Paulo, onde se diplomou. "Ele não foi fabricado, a música estava no sangue", diz dona Cinira. Até se aposentar como bancário, quando voltou com a família a São Luiz, Elpídio nunca viveu de música. Mas acabou aceitando o convite para dar aulas em Taubaté, quando Pedro Camargo, pai de Hebe Camargo, fundou uma escola de música. Deixou a fama de professor exemplar.

A filha Maria Aparecida, a Parê, além de ter cantado a música do pai no grupo Paranga, dá continuidade ao trabalho dele como educadora. Parê confirma que há muitos músicos bons em São Luiz, mas Elpídio "foi o corajoso que foi batalhar em São Paulo" nos anos 1950. "Naquela época não era fácil. Ele fez muito por São Luiz e é muito considerado, todo mundo respeita." Hoje o instituto que leva o nome do compositor tem um projeto chamado "Elpídio na sala de aula", que, segundo Parê, está dando muito certo.

Você Vai Gostar (Casinha Branca) é sua composição mais famosa, com mais de 30 gravações. Entre outros clássicos, compôs Rede de Taboa (Ranchinho Brasileiro), grande sucesso com Cascatinha e Inhana em 1958, Cai Sereno e Dona do Salão (que o grupo Paranga popularizou em meio à geração jovem nos anos 80) e A Dor da Saudade, regravada por Suzana Salles, Ivan Vilela e Lenine Santos e mais recentemente por Oswaldinho e Marisa Viana no belo CD Viva Elpídio!. Quantas fez para dona Cinira? "Não sei, é proibido saber", brinca ela. Alguma predileta? "Tenho obrigação de gostar de todas", diz, soltando e provocando sonoras gargalhadas na sala. "Senão uma fica com ciúme da outra."

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