O 'champanhe' da Serra Gaúcha

Região concentra quase todo o plantio de uvas finas destinadas para a produção de espumantes no Brasil

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2008 | 03h57

O tradicional brinde nas comemorações de fim de ano tem cada vez mais um gostinho brasileiro. Impulsionada pelo consumo, a produção de espumantes no Brasil - do nobre brut (tipo champanhe) ao popular moscatel - cresce em torno de 20% ao ano, desde 2005, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Vinho (Ibravin). Um dos motivos, acredita o pesquisador Mauro Celso Zanus, da Embrapa Uva e Vinho, é a constante melhora da qualidade dos produtos brasileiros. Conforme levantamento do Ibravin, enquanto o consumo de espumantes nacionais cresceu em torno de 15% de janeiro a outubro deste ano, em relação ao mesmo período de 2007, os importados perderam espaço no mercado brasileiro. O consumo do champanhe importado caiu 10% este ano. Além da melhor qualidade, o consumo de espumantes também cresce em função de novos hábitos do consumidor brasileiro. "Estes produtos deixaram de ser consumidos apenas em grandes festas e celebrações e passaram a ser incorporados em situações mais comuns. Hoje, também servem de acompanhamento de vários pratos, como ocorre com os vinhos", diz o pesquisador. SERRA GAÚCHA Os principais produtores brasileiros de espumantes são municípios na Serra Gaúcha, principalmente Bento Gonçalves e Garibaldi, que concentram quase 90% da produção. O clima nesta região é o mais adequado para a produção das variedades de uvas finas. "Nas noites de verão as temperaturas são amenas, o que ajuda a preservar a acidez das uvas, fundamental para produzir um bom espumante brut", explica Zanus. "A acidez dá equilíbrio ao gás carbônico, equilibra o paladar." De acordo com o pesquisador, a base do espumante é o vinho branco. Por isso, algumas variedades têm dupla função. Mas cada uva proporciona características diferenciadas ao espumante. Para o brut, por exemplo, que é um produto nobre, são usadas as variedades riesling italico, chardonnay e pinot noir. Já o espumante moscatel, mais doce e popular, é produzido com uvas como moscato branco e moscato giallo. A época de colheita é outro diferencial para garantir a qualidade. Para produzir o espumante brut, que tem de 6 a 15 gramas de açúcar por litro e de 12 a 12,5 graus de álcool, a uva precisa ser colhida antes do período de maturação, porque "quanto mais madura, mais doce será a uva, e o brut precisa de alta acidez", destaca Zanus. O espumante moscatel, apesar de ser mais doce em comparação ao brut, também exige que a colheita da uva seja precoce. "Neste caso, a uva deve ser colhida com 16 graus brix. Se fosse para produção de vinho, colheria com 22 graus brix", compara o pesquisador. Mas garantir uvas com as características necessárias para produção de um espumante de qualidade exige também mais cuidados no campo. "É preciso mão-de-obra qualificada", afirma o vitivinicultor Irineo Dall?Agnol, que cultiva 20 hectares de uva para vinho e espumantes finos, em duas propriedades na Serra Gaúcha. "O manejo é diferenciado. Fazemos, por exemplo, várias podas verde, para tirar o excesso de vegetação, o que permite entrada de sol e facilita tratamentos fitossanitários." Dall?Agnol também montou uma pequena vinícola onde produz cerca de 15 mil garrafas de espumantes por ano. "Nos últimos cinco anos percebi que o mercado de espumantes estava melhorando. Então comecei a investir no plantio de variedades mais nobres e na industrialização de espumantes", diz ele. "O Brasil tem clima, tecnologia e consumidor para liderar esse mercado. Mas produzir um bom espumante exige perspicácia, porque qualquer defeito aparece no sabor da bebida." O viticultor Ervalino Pano, de Monte Belo do Sul, concorda. "Dá o triplo de trabalho produzir uva para fabricação de espumante, comparando com a produção de uva para vinho branco", diz. Por isso, o preço precisa ser diferenciado, "senão, não compensa produzir". Este ano, a indústria pagou em torno de R$ 1 o quilo de uva fina para espumante. Enquanto a uva da mesma variedade destinada para fabricação de vinho foi vendida em torno de R$ 0,45 o quilo.

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