O chocolate que nasceu na internet

O americano Louis Rossetto, criador da revista Wired, trocou o jornalismo pela produção de chocolate. Há um ano começou sua empresa, a Tcho, vendendo chocolate pela internet, no endereço http://www.tcho.com/. A grande novidade de seu negócio era que o produto ainda não estava pronto, quer dizer, não tinha uma receita definitiva. Veja também: E o chocolate hi-tech de Mr. Rosetto   Acostumado ao formato arrojado da Wired, publicação revolucionária na cobertura de novas tecnologias, Rossetto levou um conceito vanguardista para a produção da guloseima: ele aproveitou a proximidade com o Vale do Silício e a ajuda da internet para criar seu chocolate. No site, os clientes eram incentivados a comprar e a comentar a "versão beta" do produto que, em virtude das muitas experiências com a fórmula, podia mudar bastante de uma semana para outra. No início, todas as vendas da Tcho concentravam-se no site. Lá, os consumidores tinham um espaço para comentar o que haviam gostado e desgostado no produto. De quebra ainda podiam sentir o gostinho de ajudar na criação de um nova barra. A experiência tinha tudo para dar certo. E deu. A participação dos clientes foi maciça. Ao todo 1.026 pessoas comentaram as versões cameleônicas dos tabletes de 50g feitas com chocolate de origem vindos de Gana, Madagáscar, Equador e Peru. A meta da Tcho é fazer chocolate meio-amargo de origem e privilegiar o sabor original do cacau. No site, que continua comercializando o produto, uma "roda dos sabores" apresenta os quatro tipos de barras: "fruitty" é feita com cacau em que se destacam notas frutadas de ameixa, passas, amoras; "nutty" tem sabor de nozes e notas de café; "chocolatey" promete os sabores intensos do cacau de Gana e "citrus", o último lançamento, tem toques predominantemente cítricos. Há um ano, o Paladar falou com o chocolateiro quando ele ainda procurava a receita ideal. Desde então, muita coisa mudou: o site foi reformulado, as embalagens simples, em papel Kraft, foram substituídas por uma bela combinação de grafismos psicodélicos em papéis coloridos e a primeira loja foi aberta em San Francisco, Califórnia. E o mais importante: finalmente a receita definitiva virou chocolate. Sobre a versão 1.0 da Tcho, Louis Rosseto falou, por telefone, com o Paladar, de San Francisco. Como é a versão 1.0 do chocolate Tcho? É um chocolate refinado, mais agradável na boca. Ele se aproxima do que tinhámos em mente quando começamos. O chocolate que a Tcho fazia em abril do ano passado mudou muito comparado ao feito em abril deste ano? Sim, muito. Desde o ano passado, esse chocolate deve ter passado por mais de uma centena de pequenas modificações. Vários testes foram feitos até chegarmos à versão final. Pedir ajuda dos consumidores para acertar a fórmula foi uma estratégia ousada, mas também parece ter sido o caminho mais longo. Valeu a pena? Sem dúvida. Demorou, mas gosto de pensar nisso como uma longa gravidez. A Tcho surgiu em dezembro de 2005 e levamos três anos para finalmente chegar a um resultado que nos deixasse satisfeitos. É a realização de um sonho, depois de tanto trabalho duro. A opinião dos consumidores realmente ajudou na receita final? Com certeza. Quando convidamos nossos clientes a comentar nosso chocolate no site, fizemos algo único nessa indústria. A resposta foi fenomenal, milhares de pessoas participaram. Esse feedback nos ajudou a determinar quais seriam e como seriam nossos produtos. A proposta é continuar fazendo esses testes sempre que surgirem novos produtos. Integrar as pessoas no processo de fazer chocolate é uma parte crucial do conceito imaginado de como a Tcho deve ser. O que há de tão fascinante no chocolate? Acho extraordinário saber que da primeira mordida até alguns minutos depois de terminar uma barra de chocolate seu gosto pode mudar. Assim como a percepção do sabor muda. Esse universo é imenso. Estamos só no início de chegar a uma compreensão. Qual seu sabor favorito? Assim como os romanos, costumo dizer que "gosto não se discute", pelo simples fato de que não existe gosto errado, mas meu favorito é o Citrus feito com cacau de Madagáscar. Fiquei surpreso quando descobri isso, pois não sabia que um chocolate podia ser naturalmente cítrico. Na primeira entrevista ao Paladar, o senhor disse que chocolate vivia uma fase de redescoberta como havia acontecido com café e vinho. Ainda acredita nisso? Totalmente. Especialmente nesse momento em que as pessoas comem chocolate como forma de celebração e compensação. Nos Estados Unidos o mercado de chocolate cresce enquanto uma parte da economia vai mal. Segundo notícia publicada no jornal The New York Times o consumo de doces aumentou com a crise econômica. Esse é um momento bom para os fabricantes de chocolates? Sim, mas não acredito que seja apenas isso. Existe uma fascinação aí. As pessoas estão excitadas por descobrir a amplitude do assunto. Elas gostam de saber que existem coisas diferentes, não só aquela barra de chocolate tradicional.

Cíntia Bertolino,

30 Abril 2009 | 19h30

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