O coaxar arriscado dos sapos

Pavões e suas caudas enormes, perus arrastando asa para as fêmeas e pássaros com cantos elaborados: os machos parecem estar sempre se mostrando.

BIÓLOGO , , MAIS INFORMAÇÕES: SIGNAL PERCEPTION IN FROGS AND BATS AND THE EVOLUTION OF MATING SIGNALS. SCIENCE, VOL. 333. PÁG. 751, 2011, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2011 | 03h02

Darwin explicou como esses comportamentos e adornos surgem e são selecionados. A culpa é das fêmeas. Elas preferem os machos mais vistosos. E se as fêmeas preferem acasalar com o mais vistoso dos machos, machos menos vistosos deixam menos descendentes e mutações que diminuem plumagem ou chifre condenam o macho ao celibato. Por outro lado, qualquer mutação que provoque aumento dos chifres ou uma canção mais sofisticada, garante os favores das fêmeas e resulta em mais descendentes. Darwin sabia que são elas quem mandam.

Mas esse mecanismo deveria levar ao crescimento ilimitado dos chifres, caudas e outros caracteres sexuais secundários. Apesar de Darwin não ter proposto um mecanismo capaz de controlar a seleção sexual, anos mais tarde se imaginou que o crescimento dessas características seria limitado pela maneira como as fêmeas percebem os sinais emitidos pelos machos. Se uma cauda cresce de 2 para 3 centímetros, o centímetro extra corresponde a um crescimento de 50%. Mas quando uma cauda cresce de 10 para 11 centímetros, o mesmo centímetro agora corresponde a um aumento de 10%. Evolucionistas propuseram que a percepção, e portanto a seletividade das fêmeas, não aumenta com o tamanho absoluto do estímulo, mas é proporcional à sua diferença porcentual. Se isso for verdade, a vantagem adicional de 1 centímetro na cauda em um pássaro diminui à medida que as caudas vão aumentando.

A novidade é que essa hipótese foi testada nos pântanos do Panamá. O coaxar de diversos sapos machos da espécie Physaleus pustulosus foram gravados. Eles consistem em um longo assobio seguido de diversos ruídos guturais, sendo que o número desses ruídos, a intensidade do som e a duração do assobio contínuo variam de macho para macho. Esses coaxares são a forma como os machos atraem as fêmeas.

É sabido que o morcego devorador de sapos Trachops cirrhosus também utiliza o coaxar dos sapos para localizar seu jantar. É um jogo perigoso: atrair a fêmea pode levar à morte. O que fazem os sapos, pressionados pelo desejo das fêmeas e a fome dos morcegos?

Os cientistas capturaram fêmeas de sapos e morcegos para estudar como eles selecionavam o coaxar mais sexy. As fêmeas foram colocadas em uma gaiola em cujas extremidades estavam dois alto-falantes. Em cada um, os cientistas tocavam um coaxar diferente e analisavam em que direção as fêmeas saltitavam. O mesmo foi feito com morcegos.

O resultado foi idêntico quando as fêmeas de sapo ou os morcegos foram analisados. A intensidade do coaxar não era o que atraía a fêmea, tampouco a diferença entre o número de ruídos guturais. O que permitia prever o comportamento da fêmea era a razão entre o número de ruídos guturais do coaxar. Se essa razão era 1 (mesmo número de ruídos guturais), independentemente do tempo do assobio e da sua intensidade, as fêmeas se locomoviam ao acaso para qualquer um dos alto-falantes. Quando a razão entre o número de ruídos era de 2 para 1, 75% preferiam o com maior número de ruídos - e essa preferência ia aumentando até 100%, quando a razão chegava a 10 para 1.

O sistema de percepção e escolha do coaxares operado pelas fêmeas de sapos e morcegos se comporta como previsto: a simples adição de mais um ruído não melhora significantemente o sex appeal do sapo - é preciso dobrar o número de ruídos guturais.

Mas a seleção natural impõe um limite para esse aumento. Coaxares longos, além de serem dispendiosos em termos energéticos, facilitam o trabalho dos morcegos. Aí, o pobre sapo fica sem fêmeas e perde a vida. É por isso que os sapos, apesar da preferência das fêmeas, limitam o tamanho de seu coaxar. É um exemplo a ser seguido.

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