O conflito que travou o Twitter

Até o final da tarde de sexta-feira, quando a coluna fechou, o Twitter ainda estava enfrentando dificuldades. De pé para alguns, fora do ar para outros tantos. Via web, funcionava um quê; pelo celular, quase impossível. O serviço caminhava mal desde a quinta-feira. Foi derrubado por um ataque distribuído vindo de toda parte do mundo – talvez até de seu computador, caro leitor.   Um ataque DDoS. Distributed denial of service, algo como derrubada distribuída de serviço. Simultaneamente, vários computadores tentam abrir uma mesma conexão com um mesmo servidor. A máquina não aguenta, cai. O ataque ao Twitter foi orquestrado por hackers russos que miraram também o site de blogs Livejournal e o Facebook. Mas como o Twitter concentra seus servidores em um mesmo serviço, enquanto os outros têm vários espelhos, ficou mais exposto.   Um ataque político de hackers russos com um único alvo: um blogueiro político da Geórgia que se assina Cyxymu. O nome é a latinização da palavra em georgiano para Sukhumi, capital da Abecásia. E aí a história complica. Desde 1991, época em que a União Soviética estava se desmantelando, a Abecásia declarou independência da Geórgia. São reconhecidos pela Rússia, pela Nicarágua e pelo Hamas, grupo que governa a Faixa de Gaza. O resto do mundo e os georgianos – inclua-se na segunda lista o blogueiro Cyxymu – acham que é um estado da Geórgia.   A política do Cáucaso é tensa. A Rússia não se incomoda tanto com a independência dos países, desde que sigam coletivamente a mesma toada que Moscou dita. A Geórgia não segue, então tudo que puder desestabilizar o país vale nas diretrizes de Moscou. Nos dois cantos, a blogosfera política é extremamente ativa e polarizada. Nisto, não é diferente de suas equivalentes nos EUA ou mesmo no Brasil. O comentário político vem acompanhado de torcida por um time ou por outro e os leitores se dividem conforme seus alinhamentos ideológicos.   A diferença é que a Rússia é também um dos ninhos mais férteis de crackers – os hackers barra-pesada – do mundo. É uma turma agressiva, não raramente envolvida em atividades criminosas e também nacionalista. Nos tempos de Vladimir Putin – que não é mais presidente mas permanece no comando do país – o nacionalismo russo é governista. Sonha com a Rússia grande e tem muito ciúmes daquela que chama de sua "área de influência".   Tratou-se de um ataque tradicional, típico dessa turma de crackers de lá. Eles espalham pelo mundo programinhas nocivos por meio de spam e sites infectados. Vários computadores são contaminados sem que seus usuários jamais desconfiem. O programa fica dormente até que, um dia, é acordado. Aí, aproveitando-se da conexão à internet do hospedeiro, começa o trabalho coletivo de derrubar os Twitters e Facebooks da vida. Assim é o cotidiano online: uma disputa local. Um blogueiro político cujo mote é "a Abecásia é georgiana" repentinamente abate alguns dos serviços mais populares da rede. Todos terminam afetados.   Nacionalistas e hábeis escovadores de bits politicamente não são muito espertos os crackers russos. Cyxymu jura que a ex-KGB está por trás. Quem há de saber? O fato é que ao contrário de combater os interesses georgianos, o resultado do ataque foi jogá-lo no centro do picadeiro. Não se fala de outra coisa na grande rede.   Vivemos todos, pois, um dia e tanto de Twitter incerto. É claro que há uma vantagem nisso tudo. Menos consultas ao celular, menos reloads na mesma página web, um descanso do frenesi de tanta gente conversando publicamente ao mesmo tempo. Vantagem, pois é. Mas que fez falta durante esse tempo todo, ora se não fez.

Pedro Doria,

10 Agosto 2009 | 17h49

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