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Dias Lopes
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O contagiante doce de reis

No meio da massa vem um bonequinho, moeda ou fava. Quem ganhar a fatia com o brinde terá sorte por um ano

Dias Lopes,

31 de dezembro de 2008 | 10h16

Um doce de inspiração religiosa se transforma aos poucos em atração das ceias brasileiras desta época do ano, repetindo o que já acontecera em outros países. Criado na França para celebrar a Epifania ou Dia de Reis – a festa da adoração do Menino Jesus pelos Reis Magos, comemorada a 6 de janeiro – hoje é saboreado desde o Natal, ou seja, do final de dezembro ao mês seguinte. Foi instituído no tempo de Luís XIV (1638–1715), o Rei Sol. Na verdade, são dois doces, com receitas diferentes e nomes distintos. Mas se encontram unidos de maneira inseparável pelo mesmo simbolismo. O primeiro, mais antigo, chama-se gâteau des rois. É uma coroa de brioche coberta com frutas cristalizadas e açúcar, típica do sul da França. O segundo recebe o nome de galette des rois, uma torta baixa e redonda de massa folhada, recheada com creme de amêndoas, difundida no norte do país e na capital, Paris. Cada um pretende ser o mais representativo do Dia de Reis. Veja onde comprarVeja como fazer a Galette de RoisNo passado, parte da população escondia uma fève (fava) dentro de cada gâteau ou galette des rois, representando o Menino Jesus, enquanto as pessoas abonadas a substituíam por uma moeda de ouro. Quem recebesse o brinde na fatia que lhe cabia teria sorte nos 12 meses seguintes e era o rei (ou a rainha) da festa. Em compensação, pagaria o doce do ano seguinte. A partir de 1870, as fèves e as moedas foram substituídas por bonequinhos de porcelana e, mais recentemente, de plástico. Só não perderam o nome primitivo. Continuam a ser denominados fèves e a desfrutar enorme popularidade nesta época do ano. Existe na França, inclusive, um clube de colecionadores de bonequinhos, com aproximadamente 2.500 filiados.Muitos pesquisadores associam o gâteau e a galette à mitologia clássica. Com uma preparação assemelhada, os antigos romanos comemoravam as saturnálias, festas em honra de Saturno, o mais jovem dos titãs, promovidas no fim de dezembro, quando se invertiam as posições sociais: os escravos davam ordens aos senhores e estes os serviam à mesa. Colocavam uma fève dentro de um bolo e quem a achasse virava soberano da cerimônia. Curiosamente, pela referência explícita aos reis, o doce teve a sobrevivência ameaçada. Durante a Revolução Francesa, de 1789, alguns rebelados quiseram apagar a palavra de seu nome. Inicialmente, tentaram mudar o Jours des Rois (Dia dos Reis) para Jour des Sans-Culottes (literalmente Dia dos Sem-Calção, mas que significava algo como Dia dos Descamisados). Um deputado da Convenção Nacional, a assembleia que proclamou a república e condenou à morte Luís XVI, subiu à tribuna para afirmar ser intolerável a referência do doce ao titular da monarquia após sua derrubada. Pretendia rebatizá-lo de galette des sans-culottes. A objeção se repetiu em Portugal, onde o gâteau des rois aportou na década de 70 do século 19, traduzido para bolo-rei. Lançado por Baltasar Rodrigues Castanheiro Júnior, dono da Confeitaria Nacional, de Lisboa, ainda em funcionamento na Praça da Figueira, 18B, fez sucesso imediato. Com a proclamação da república, em 1910, surgiram os problemas. Três meses após a deposição do rei d. Manuel II, um jornal da capital vaticinava: "O bolo-rei tende a decair ou desaparecer." A menção ao antigo regime incomodava os republicanos e, por precaução, as confeitarias lisboetas passaram a designá-lo bolo de natal ou de ano-novo. Nem assim os opositores se deram por satisfeitos. Propuseram rebatizá-lo bolo presidente ou bolo arriaga, em homenagem a Manuel José de Arriaga (1840–1917), primeiro presidente da república portuguesa. Passado o vendaval político, o bolo-rei recuperou a identidade.Além de Portugal, outros países assimilaram a deliciosa tradição francesa. Seguindo receitas parecidas, os americanos têm o king’s cake, os gregos a vassilopita, os espanhóis e mexicanos o roscón e a rosca de reyes. Todas essas preparações foram criadas para o Dia de Reis, porém ampliaram o período de vigência. Um exemplo é o king’s cake, característico de New Orleans, atualmente elaborado no carnaval. Quem encontrar o bonequinho de porcelana no seu interior conquistará o direito de liderar os folguedos. Antigamente, o período de folia ia do Dia de Reis à Quarta-feira de Cinzas. Os americanos adoram primazias. Há algum tempo, fizeram o maior king’s cake do mundo, uma coroa de brioche repleta de frutas secas que media 27 metros de diâmetro e foi consumida por 540 pessoas. Feliz ano-novo! jadiaslopes@terra.com.brCorreçãoSobre a coluna que teve como tema o panetone, publicada no Paladar do dia 18 de dezembro, o autor esclarece: "Em São Paulo, no início do século 20, famílias italianas faziam em casa o grande pão doce e a padaria paulistana Di Cunto teria sido pioneira na sua comercialização, em 1939, seguindo "a verdadeira fermentação natural". No interior do Brasil a novidade chegou a partir de 1952, levada pelo italiano Carlo Bauducco, dono da marca homônima, também de São Paulo, primeiro a industrializá-la no País. Foi assim que iniciamos a adoçar nosso Natal com o indispensável panetone."

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