O cuidador do berço da metrópole

Cícero, pernambucano de 37 anos, é desde 1999 o guardião fiel do Pátio do Colégio

, O Estadao de S.Paulo

25 de janeiro de 2010 | 00h00

   

 

 É segunda-feira, o centro de São Paulo ferve, mas as portas azuis de pinho-de-riga estão lacradas a cadeado, alheias a todo movimento ao redor. É dia de manutenção no Pátio do Colégio, onde a cidade foi fundada, em 25 de janeiro de 1554. Dia de lavar e estender os 12 tapetes das portas, de enxaguar os 35 metros de toldos de acrílico, de podar três árvores centenárias, de varrer o piso de pedra. Também é dia de passar outra mão de massa corrida nas paredes originalmente pintadas a cal. Momentos de ordinária simplicidade, e conservação.

Segurando escada de 15 metros sob o sol das 11 horas, um senhor de sorriso tímido lança palavras de incentivo ao ajudante, que oscila inseguro no antepenúltimo degrau, balançando uma lata de tinta branca: "Vai com fé, rapaz. Sem medo da altura, que aí em cima todos te protegem. E, se precisar, aqui embaixo também." O compromisso deste senhor, ali dirigido apenas ao ajudante, é extensivo, também, a todas as construções que os circundam - cabe a Cícero Fernando da Silva Melo, pernambucano de 37 anos, zelador e funcionário mais antigo do Pátio do Colégio, a importante missão de tomar conta do berço de uma metrópole.

Do povoado das Pimentas, onde vivem 500 famílias, no meio do sertão pernambucano, Cícero acabou na Sé, região central da maior cidade da América Latina. "É o serviço de qualquer zelador comum", define, com modéstia, o homem cujo primeiro emprego fixo na cidade fora no local mais simbólico que poderia haver. Desde 1999, é Cícero quem zela por tudo ali.

"Quando cheguei, não tinha nem ideia do que era esse lugar. Achava que era um colégio antigo transformado em museu, algo assim", contou, sentado num dos bancos de granito do Jardim do Pátio, próximo ao restaurante do complexo - também há biblioteca e museu, além da capela do beato José de Anchieta. Uma figueira centenária e dois jequitibás sombreiam os 300 metros quadrados do jardim. Ali também está o maior orgulho do zelador: um exemplar de pau-brasil, plantado por ele, na primeira semana de serviço. "Quando a família vem visitar, é a primeira coisa que mostro."

Também é Cícero quem tira o pó, uma vez por semana, da única parede de taipa de pilão remanescente no local, datada da segunda metade do século 17. Serviço que - Cícero não consegue evitar - lembra demais o local onde nasceu. No povoado das Pimentas, ainda hoje, a maioria das casas também é de taipa de pilão. "Acho engraçado os monitores chamarem a atenção para ela, porque a casa em que nasci também era assim, de barro. Um cômodo só, onde ficavam penduradas sete redes para os sete da família."

Em Pernambuco, Cícero levava vida dura: começou a trabalhar aos 8 anos, nas roças de milho e feijão. Mais tarde, carregou sacos de ração de 40 a 80 quilos numa avícola, até completar 26 anos, quando decidiu seguir o caminho de uma das irmãs e se mudou para São Paulo. Hoje vive sozinho no Campo Limpo, zona sul, em casa alugada, de três cômodos - como projeto futuro, quer comprar a casa e trazer para a capital a filha Laura, de 15 anos, que mora em Pernambuco com os avós.

"Até vou visitar a família, mas passo dois ou três dias e já quero voltar. Minha vida é aqui, onde tem mais oportunidade, e a da minha filha também vai ser", afirma. "Já me joguei de vez na correria. Tenho muito a agradecer à cidade."

A mãe de Cícero, Josefa Maria, de 67 anos, também agradece - no dia em que precisou do filho, deu graças por ele morar na cidade grande. Em 2002, vivendo nos confins de Pernambuco, Josefa começou a sentir dor no peito, aperto que subia até a garganta. Em pouco tempo, mal conseguia comer ou falar. No posto de saúde local, foi desenganada. Ligou aos prantos para o filho, que a recebeu para uma desesperada consulta médica.

Passou por um posto de saúde de Guaianases e pelo Hospital Municipal da Mooca, na zona leste, até ser encaminhada ao Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, zona sul. Após exames, soube que bastaria seguir um tratamento para resolver o problema. "Tomo os medicamentos até hoje. Devo tudo àquela visita a São Paulo", comentou Josefa, do telefone de uma mercearia no povoado das Pimentas, numa tarde recente de segunda-feira. "Também não esqueço a doutora e guardo a receita para lembrar dela."

Era 12 de maio de 2003, uma segunda-feira chuvosa e, como lembra Josefa, "cheia de carros para lá e para cá". No Dante Pazzanese, quem a atendeu foi uma então residente, com 26 anos recém-completados. Ela tinha o sonho de se tornar cardiologista. Conforme descrito na bem guardada receita médica, chamava-se Sandra.

 

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