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O demônio Hoffman

Dádiva de artistas como o astro de Capote é solitária e beira uma espécie de leve sociopatia

Lee Siegel,

08 de fevereiro de 2014 | 16h54

Ao saber da chocante notícia da morte de Philip Seymour Hoffman em decorrência de uma overdose de heroína, pensei num perfil que escrevi a respeito de outro grande ator, John Goodman, alguns meses atrás. Como Hoffman, Goodman lutou por bastante tempo contra o abuso de aditivos , tendo sido alcoólatra por 30 anos. Ele me disse que estava sóbrio havia sete anos. Deu-me a impressão de que manter-se longe da bebida é algo que exige muito esforço. Também como Hoffman, Goodman lutou contra o peso. Quando estrelava a série de TV Roseanne, ele ganhou fama, mas seu peso subiu para cerca de 180 quilos. É muito, mesmo para o quase 1,90 m de Goodman.

Pensei comigo: que será que torna os artistas, e os atores em especial, tão vulneráveis às drogas e ao álcool? Praticamente todos os atores famosos que conheci foram alcoólatras em algum momento de suas vidas, embora os homens pareçam ser mais afetados por isso que as mulheres. Era como se essas pessoas tivessem a sensação de não serem merecedoras da rara gratificação da fama e, com isso, transformassem o próprio sucesso numa espécie de castigo.

O nome que costumamos dar a essa condição na qual a pessoa não suporta fazer de si mesma uma imagem favorável é autodesprezo, e, após a morte de Hoffman, a mídia ficou repleta de comentaristas ansiosos para projetar esse traço em praticamente todos os personagens do ator.

Mas a verdade é que, em sua maioria, os personagens interpretados por ele não odeiam a si mesmos. Lancaster Dodd, o guru de autoajuda com poderes sobre-humanos de autoconfiança do filme O Mestre, está longe de ser alguém angustiado por uma imagem desfavorável de si mesmo. O mesmo pode ser dito do notável retrato que Hoffman fez do lendário músico Lester Bangs em Quase Famosos, ou da vivacidade extraordinária do seu Truman Capote – um homem desprovido do mais remoto traço de insegurança – e tantas outras atuações imortais.

Não conheci Hoffman pessoalmente, embora conheça pessoas que o conheciam e amavam, mas me senti próximo dele depois de vê-lo interpretar Willy Loman dois anos atrás, nos palcos da Broadway, numa reencenação de A Morte do Caixeiro Viajante. Com frequência, Loman é interpretado equivocadamente por atores que o mostram como um homem deprimido e infeliz cujo suicídio final parece óbvio desde os primeiros momentos da peça. Mas Hoffman criou mais que um personagem tridimensional: ele deu a Loman quatro dimensões. Seu Willy Loman era exausto, derrubado, perdido ao mesmo em memórias de um passado mais feliz e fantasias de um presente diferente, miserável, mas determinado a ser alegre, até esperançoso em relação ao futuro. Todas essas ideias conflitantes de sua própria vida finalmente explodem quando Willy é confrontado pelo filho, Biff, e pai e filho caem brevemente nos braços um do outro.

Tive a sorte de ter ido ao teatro naquela noite com um amigo psicanalista, porque o espetáculo do Willy de Hoffman foi quase demais para mim. Abraçando o filho perdido, Willy estava desesperado, faminto, pesaroso, realizado, esperançoso, arruinado. Assim como podemos sentir quando um pianista é arrebatado pela cadenza de uma sonata de Beethoven como um barquinho sendo arrastado para o mar, era possível sentir que o ator tinha invadido o personagem ao mesmo tempo que satisfazia cada uma das possíveis nuances e matizes deste. Tinha-se a sensação de estar na presença da própria qualidade que fez de Hoffman o grande ator que era: uma impotência quase indisciplinada, uma absoluta vulnerabilidade diante da vida. No palco, ele suava como um maratonista.

Talvez um dos nomes do demônio de Hoffman seja autodesprezo, mas um homem que acreditava em si a ponto de acreditar que outras pessoas suspenderiam suas vidas para vê-lo atuar não poderia odiar a si mesmo com tal grau de intensidade obstrutiva. Em vez disso, me parece que pessoas como Hoffman e Goodman, e tantos outros artistas talentosos que se destruíram com drogas e álcool, gostavam e gostam de si, mas não conseguem suportar a virulência peculiar da adulação coletiva.

Afinal, a dádiva do artista é de natureza solitária, algo que beira uma espécie de leve sociopatia. Nenhuma vocação exige tanto recolhimento e introspecção quanto fazer arte – mesmo quando, na atuação, o ator mergulha em suas profundezas íntimas diante do público. Ser admirado pelas massas é como a perversa inversão da concentração quase ocultista necessária para que um ator habite plenamente uma outra pessoa imaginária enquanto está diante de luzes potentes, câmeras, um diretor, outros atores, pequenas multidões de técnicos e observadores curiosos.

O ponto de apoio do ator é a entrega de si. Um artista escapa para sua arte para satisfazer algum tipo de rara necessidade, que não é sentida por outras pessoas. Mas, quando a gratificação resultante do sucesso chega na forma de fama, riqueza, romance e admiração na maior das escalas, deve ser muito mais difícil retornar àquele estado anterior de necessidade – aquilo que Yeats chamou de "the foul rag and bone shop of the heart" (algo como a miséria, o lixo do coração). A incapacidade de recuperar esse estado de puro querer bem pode ser a causa do autodesprezo. Talvez apenas as drogas ou o álcool sejam poderosos o bastante para amortecer tanto as gratificações extremas da adulação geral quanto a alienação do artista em relação à própria arte que delas resulta.

Sou um mero mortal, e não me é dado conhecer o labirinto de feridas e diferentes cicatrizes que se desenrola na mente do gênio artístico. Mas, depois de assistir paralisado à interpretação de Hoffman em A Morte do Caixeiro Viajante com lágrimas nos olhos, fui a um bar com meu amigo psicanalista e bebi, bebi e bebi. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES E AS REVISTAS HARPER’S, THE NEW YORKER E THE NATION

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