O desafio do PCC

A prisão pela polícia do Paraná de mais de 200 pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) é mais um elemento que se vem juntar a vários outros para demonstrar que essa organização criminosa está mais viva e atuante do que nunca. No ano passado, investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal já haviam deixado evidentes tanto a força crescente do PCC como a multiplicação de seus tentáculos no País e no exterior.

O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2015 | 03h04

O que distingue a operação do Paraná é o seu tamanho – a maior já feita contra essa organização criminosa que, além de controlar presídios, comanda o crime fora deles. A investigação da polícia paranaense começou há um ano e meio e com base nela a Justiça decretou a prisão de 767 suspeitos de integrar o PCC, como mostrou reportagem do jornal Folha de S.Paulo. O encontro com um casal de suspeitos de dezenas de cadernos com anotações sobre membros do PCC e suas atividades, assim como a escuta de 200 telefones, autorizada pela Justiça, foram elementos decisivos para se chegar a esse resultado.

Mais da metade – 484 – dos mandados de prisão é de membros do PCC já presos em penitenciárias e delegacias do Paraná e poderão ter suas penas agravadas pela acusação de associação criminosa. “Pense como preso: estou para sair. Agora me aparece um novo mandado só por causa desses caras (do PCC). É nesse psicológico que queremos agir”, afirma o diretor-geral do Departamento de Execução Penal (Depen), Luiz Cartaxo Moura, para quem os mandados contra os já presos são importantes para desestimular novas adesões ao PCC.

As escutas e os cadernos permitiram não só entender melhor a organização, a forma de recrutamento e remuneração de seus membros e os métodos de ação do PCC, como também identificar muitos dos que nele ocupam posições de comando em 11 Estados, nos quais planejam crimes como tráfico de drogas, roubos e homicídios. Essas informações estão sendo repassadas às autoridades de segurança pública daqueles Estados.

Outro dado importante é a constatação da presença do PCC em algumas das pequenas cidades localizadas em pontos estratégicos para suas atividades, como o oeste do Paraná, na fronteira com o Paraguai – por causa do tráfico de drogas e o contrabando –, e no norte, divisa com São Paulo. Essas informações permitirão aprofundar as investigações sobre a ação do PCC nessas áreas e ajudar a combatê-la.

Para o promotor paulista Mário Sérgio Christino, especialista em crime organizado, a forte presença do PCC no Paraná é resultado de uma “estratégia mal pensada” do governo paulista, que na primeira década do século transferiu para lá alguns chefes da organização – entre eles “Geleião, da primeira geração de chefes”, que lá “comandou grandes rebeliões,” – sem o pleno conhecimento disso pelas autoridades daquele Estado. A seu ver, a simples presença dela hoje em vários Estados – sendo o Paraná um dos exemplos de destaque ao lado de São Paulo, onde surgiu – demonstra a necessidade de melhorar o combate a essa organização criminosa.

A importância e a urgência de uma reavaliação da forma de combater o PCC são atestadas também pela diversificação cada vez maior de suas atividades e por suas ligações com grupos criminosos no exterior. Em outubro de 2014, a sua relação com as vans que integram o serviço de ônibus da capital, usadas para lavar dinheiro do tráfico de drogas, que já é uma de suas principais fontes de renda, deixou o terreno da simples suspeita e foi objeto de uma denúncia do Ministério Público Estadual à Justiça.

Um mês depois, foi a vez de o Ministério Público Federal denunciar à Justiça a ligação do PCC com a máfia italiana. Reportagem do Estado mostrou que o PCC se aliou à N’Drangheta, um dos quatro ramos da máfia, para levar cocaína da Bolívia para a Europa. Ou o combate ao PCC corresponde às mesmas dimensões que a organização adquiriu ou o problema só tende a se agravar.

 

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