O dia em que Lampião se apoderou de Rita Lee

Veje homi seu menino

Christian Carvalho Cruz,

05 de fevereiro de 2012 | 03h56

Sente que vou lhe contar

Do dia que baixou Virgulino

Em um palco feito altar

Na Rita que não é a santa

Mas moça boa no falar

Antes contudo todavia

Um bocado acabrunhado

Peço a bença dos poetas

Que nessa arte têm mestrado

Não riam aqui deste mané

Um patavina do Assaré

Pois aquele um, o Virgulino

É o próprio Lampião

Falecido no Sergipe

Sítio deste dramalhão

E Rita é a Lee a negra ovelha

Nossa mais digna pentelha

Foi na Barra dos Coqueiros

Sua cantoria derradeira

Armou-se grande festa

Pro adeus de uma roqueira

Agora não venham os dotô

Com essa chata choradeira

Vocês conhecem essa cara

Essa fala, esse cheiro

Portanto se desespantem

Com os modos de carroceiro

Ela ficou só pouco mais fula

Com o espírito do cangaceiro

Quando a dita assombração

Empreendeu sua manobra

Ocupando aquele corpo

De cabelo cor de abobra

Ela sentindo a ditadura

De cabrita virou cobra

Era noite alta e fresca

Quando surgiu a soldadesca

Bulindo o povo, acintosa

Atrás da tal erva venenosa

Lá de cima Rita viu

Parou o show, o céu caiu

E quando súbito se viu

A lua desaparecer

Na praça antes pacata

Foi um tal de se benzer

“Vixe cr’em Deus pai

O regabofe vai feder”

Possuída pelo fantasma

Do bandoleiro nordestino

Rita fez da voz o bacamarte

E da bala o seu hino

Chamou major de cachorro

O tenente de equino

A roqueira do cangaço

Disse tudo sem volteio

Oiô de frente a guarda

Exibiu dedo do meio

C’atitude obscena

Só cresceu o rebosteio

Nem o beiço quis molhar

Com água, suco ou fruta

Se dirigiu aos capacetes

“Seus filhos duma puta

Venham me pegar

Sou avó mas tô enxuta”

A razão e o motivo

De tamanho aporrinho

A Lampiona deixou claro:

A força bruta, o desalinho

No lombo da meninada

Causa dum baseadinho

Indo pra lá mais adiante

Não precisa de adivinho

Pra notar naquele grito

Também disparo de espinho

Contra os cabra que arrocha

Aluno, nóia e Pinheirinho

Por isso e mais um tanto

Que a mutante encrenqueira

Em seu verbo assoberbado

Pôs nos dente a peixeira

Dando devido sacolejo

Na triste vida brasileira

Quem ficou aperreado

Foi Déda governador

Disse e não é chiste

Que Rita está em seu playlist

Mas xingar homem da lei

É demais pra quem assiste

Não por outra o mandatário

Pensou ir ao tribunal

Cortar a paga do cachê

Mas evitou posar de mau

Se Rita lamentasse o auê

“Causdequê?! Do fumacê?!”

Entremente o rebuliço

Muito apoio lhe foi dito

O filho Beto veio aqui

E confessou estar aflito

O titã Sérgio Britto:

“Fuck the police, viva Rita Lee!”

Ainda chefe de Corisco

64 anos e avó

Gulosa, escandalosa

Foi levada ao xilindró

E nas venta do delegado

Passou novo forrobodó

Causo tão misterioso

Os pelo sobe de alembrar

Mas juro ao senhor

Pela emoção não me guiar

Tava assim de cabra da peste

Que pode tudo confirmar

Do seio da luz brilhante

Veio o divino chanceler

Em pessoa o Padim Ciço

Com sua mágica colher

Futucou-lhe as entranhas

Rancou o capeta da mulher

A cantante estrebuchava

Se arrastando pelo chão

Pro marido ela explicava:

“Foi o calor da emoção”

E Roberto amparava:

“Cospe, Rita, cospe fora o dragão”

Exorcizado o coisa ruim

Ordenou o padroeiro

“Rita, mia fia

Não atuo de bombeiro

Pois volte já pra rede

Escandalize os tuiteiro”

Ela beijou a mão do santo

Agradecida e juvenil

Pensou que bem podia

Ser presidenta do Brasil

Pra dar Panis Et Circenses

A essa gente tão gentil

Má ideia não seria

Pois artista não sobrou

Chico só quer bola

E Caetano caducou

Então vote em Rita Lee

Prum país mais rock and roll!

Vou parando por aqui

De sua paciência abusei

Minha lira se gastou

Das fantasias que cantei

Mas garanto meu amigo

Se aumentei não inventei.

O artista e cordelista J. Borges, premiado pela Unesco, fez esta xilogravura especialmente para ilustrar os versos acima. Ele tem 76 anos e vive em Bezerros (PE) 

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O artista e cordelista J. Borges, premiado pela Unesco, fez esta xilogravura especialmente para ilustrar os versos acima. Ele tem 76 anos e vive em Bezerros (PE) 

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