O direito de nos distrairmos

Deleto pela trigésima vez um e-mail que estão me passando e repassando, virou uma corrente (não me enviem correntes, faço questão de quebrá-las) sobre a questão de usar o voto nulo como arma. A internet tem momentos infernais, você não sabe como o seu endereço aparece em certos computadores e na tela surge de tudo, desde convocações de cidadania ao Boris Casoy xingando os garis, a protestos contra o corrupto governador de Brasília, mensagens de escárnio ao Sarney (repasso, tomei horror ao homem), chegando a oferta de Viagra ou me convocando para aumentar o pênis. Mandam só para mim, ou para todos os homens? Será que há tantos problemas assim na área masculina?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2010 | 00h00

Fecho o computador, desço para ir ao banco. Ainda vou, apesar de poder fazer tudo pela internet. No banco, observo as trapalhadas das pessoas com as portas giratórias. Há os que hesitam, os que se confundem, há os indignados xingando os pobres seguranças que ouvem poucas e boas. Boas? A expressão me soa mal. O certo não será ouvem muitas e ruins? Apanho minha senha prioritária, mas uma jovem vem atrás de mim e também usa a prioritária, os espertinhos se multiplicam. Por que não? Se o governador Arruda é esperto, se o deputado da meia é, por que não sermos todos?

A fila do banco ainda é um momento em que converso com as pessoas, ouço histórias, reclamações, elogios, poesia. À minha frente, o violinista Nathan Schwartzman, um dos grandes músicos deste país, segue tranquilo e humilde esperando a vez. Imagino quantos neste banco conhecem a excelência de Nathan, o que ele já encantou de plateias. Há quantos anos ele não dá um concerto, grava um disco? Dois guichês ficam livres ao mesmo tempo, hesito entre o sorriso de Rose e a afabilidade de Rita de Cássia. Elas são a prova de que ainda existe humanidade nos bancos, não é só máquina e informática, botões, senhas, números, cifras. Dois minutos de conversa, três, mesmo que haja alguém impaciente atrás (e quem é paciente nesta cidade?)

Uma senhora toca em meu ombro, "é a sua vez, meu senhor", ela viu o número de minha senha. Também ela não está com pressa, apenas me alertou, eu estava distraído. À medida que envelhecemos não temos mais pressa, sabemos o que é o tempo, ele não pode ser esticado, diminuído, alongado, contido. Sabemos que nosso tempo diminuiu, mas a pressa não resolve nada, só nos deixa cansados e suados neste calor. Distrair-se é uma coisa boa. Vejo gente preocupada com isso, aterrorizada, com medo de ser sinal de velhice, Alzheimer, caduquice, esclerose. Os termos se misturam, o que antes era uma coisa hoje é outra, caduquice pode ser o Alzheimer. Tem ainda o gagá, aquele que se desligou, não sabe em que mundo está e não se importa, faz as coisas mais disparatadas. Acho que um dia vou querer cometer disparates.

Será que se distrair não é uma coisa boa? Desligar-se, entrar em outra (se eu disser entrar em alfa vão me achar dinossauro), viajar (outro termo velho), sair deste mundo, fugir da real, porque a real é o assalto na esquina, o congestionamento, o nervosismo, a inundação, o suplício da Marginal do Tietê, o moleque fumando crack, o calor senegalesco (epa!), o mendigo caído no meio da calçada (e todos se desviam dele), a conta a pagar, o IPTU, o IPVA que é dinheiro jogado no esgoto, a multa do marronzinho, as filas únicas dos cinemas. Sempre que chega a minha vez, esgotou a lotação do filme que desejava ver.

Distrair-se é ser feliz, solto, despreocupado com as coisas materiais, com o entorno. Temos o direito de ser felizes por momentos, nos refugiarmos em um mundo que criamos do nada ou que recuperamos de nossa memória. Os tempos proíbem a distração, precisamos estar focados, antenados, informados, em comunicação, buscando sempre um target, cumprindo uma meta. Ah, como ouço esta palavra como uma condenação, estigma, lança a nos perfurar. Aliás, ouço sempre, metas, metas. Prazos, tenebrosos prazos. Distrair-me, sentar-me na calçada, entrar na sorveteria, tomar uma tônica com limão espremido, ficar olhando o semáforo mudar, verde, amarelo, vermelho.

Deste modo, para continuar a me sentir humano, vou à minha agência, refugio-me no sorriso de Rose, na amabilidade de Rita de Cássia, no olhar vivo e inquieto de Luciana. Nós, clientes, quase sempre somos os mesmos, forma-se uma pequena comunidade, essas coisas existiam antigamente, os gerentes conheciam todo mundo, a vida de todo mundo, mas agora somos números e cadastros, não por culpa deles, gerentes, mas das normas, das constituições, de leis bancárias globais. O banco em São Paulo é igual ao de Berlim, de Siena, todos têm as mesmas máquinas, funcionam com os mesmos cartões. Falo com quem? Gosto até quando a porta giratória emperra e um ser humano precisa intervir e me libertar. A máquina ainda precisa do homem, penso com alegria.

No meu banco há poltronas para esperar, o ar condicionado é ameno, entro para fingir que quero um extrato, é motivo para flanar, desdenhar os apressados, das filas. Só não sei ainda se os bancos têm banheiros que o cliente possa usar. Dia desses, entrei numa agência, pedi, não me deixaram, o banheiro era só para funcionários. Lembrei-me de que anos atrás, décadas, talvez (o que importa o tempo?), eu tinha um recurso quando estava apertado. Entrava nos cinemas e ia ao banheiro. Os bons cinemas sempre tiveram banheiros limpos. Mas esse assunto, que interessa a todos, sem exceção, fica para dia desses. Distraí-me, perdi o fio da meada. Quantos metros tem uma meada?

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