'O diretor é responsável pela aprendizagem'

Programa de formação em Nova York capacita gestores por um ano e meio antes de eles assumirem uma escola

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2012 | 03h04

Aquela visão (antiga e encrustada) de que o diretor é o responsável pela parte administrativa da escola enquanto os professores se incumbem de ensinar os alunos é um equívoco a ser combatido. "O diretor deve sentar com os seus docentes para estabelecer metas sobre o que os estudantes vão aprender . Devem ser educadores visionários e apaixonados que lideram escolas onde todas as atividades tenham a meta de acelerar o aprendizado e o crescimento acadêmico", defende Irma Sardoya.

Desde 2003, a educadora está à frente da Academia de Lideranças de Nova York, instituição que já formou 1.600 diretores, a maioria com atuação em áreas de vulnerabilidade social. A seguir, Irma explica como funciona essa capacitação que inclui curso de formação inicial, um ano de residência e programa de mentoria.

O que motivou a criação da academia?

Há nove anos, o prefeito e o secretário de educação perceberam que havia muitos diretores da cidade que se aposentariam em breve e que não havia um grupo de novos profissionais capacitados para as vagas. Dessa necessidade, várias fundações e empresas se uniram e criaram um fundo para abrir a Academia de Liderança. Nascemos, portanto, com o objetivo fixo de recrutar, capacitar e providenciar a colocação desses novos diretores.

E já havia o perfil do diretor ideal a ser buscado?

Sim. Partimos do pressuposto de que a pessoa não deve aprender apenas a cuidar dos aspectos administrativos, mas também conhecer métodos didáticos, estar apta a ajudar os professores a melhorar suas aulas e saber como desenvolver um currículo. Porque para ser um diretor, é preciso saber o que é ser um bom professor e conhecer as noções básicas de como ensinar alunos Por isso, já selecionamos candidatos com essa vontade de aprender.

Era uma condïção?

Era. Além de ter habilidade em lidar com as pessoas, se expressar bem, saber gerir seu próprio tempo, ter o hábito de dar retorno sobre a execução de uma tarefa e estar aberto a ter o trabalho avaliado e, se necessário, rever suas ações. Verificamos isso em textos e dinâmicas. Por fim, a última parte da seleção é uma entrevista sobre didática.

Por que eles já são professores, não é?

Exatamente. Por uma exigência estadual, precisam ter no mínimo três anos de experiência em sala de aula. É assim que podemos ter uma ideia do que eles sabem, de quem são, se são apaixonados, se querem efetivamente fazer os alunos aprenderem. Também vemos os que não se importam em trabalhar em um lugar em que a situação não seja tão boa assim, e, pelo contrário, demonstram interesse nas escolas mais difíceis. Isso é visto logo, porque não se pode convencê-los a fazer depois de já terem sido selecionados.

Passado o filtro, como funciona exatamente essa capacitação?

A primeira fase é um curso de verão de seis semanas onde nós os treinamos em um cenário que simula uma escola e onde ele deve resolver problemas, tomar decisões e ajudar seus alunos a melhorarem seu desempenho. Sempre trabalhando em equipe. Nós os forçamos a trabalhar em equipe porque assim, ao irem para a escola, vão privilegiar o trabalho conjunto dos professores e farão questão de trabalhar em parceria com os docentes. Porque lá na frente, se ele verificar que os alunos estão indo mal em matemática, precisa trabalhar com os docentes de matemática para melhorar os resultados. Afinal, tanto ele como o professor são responsáveis pelo aprendizado de cada estudante.

Ao final desse tempo, ele se torna um diretor aspirante, mas não assume uma escola. É isso?

Isso. Segue para um ano de residência em uma escola gerida por um diretor mentor selecionado e treinado pela academia. Esse mentor sabe os pontos fortes e fracos do aspirante, a quais situações ele deve ser exposto e os aspectos que precisa desenvolver. Então, de várias formas durante o ano, o aspirante não só observa como o diretor mentor trabalha, mas tem a oportunidade de assumir certas responsabilidades para se posicionar, tomar decisões, trabalhar com os professores, ir para a sala de aula, obter retorno etc. É só no fim dessa residência que ele obtém a qualificação para assumir uma escola. E mesmo assim não é sozinho. Em seu primeiro ano de trabalho, um treinador vai acompanhar seu desenvolvimento nos pontos que ambos acreditam que ainda possam ser melhorados.

E quem paga por isso?

O Departamento de Educação da Cidade de Nova York. Grande parte da verba que tínhamos nos primeiros anos acabou. Agora a prefeitura precisa pagar por todos os gastos. Por isso, querem ter certeza de que nós estamos gerando bons líderes para o sistema.

É possível mensurar os impactos no rendimentos dos alunos?

Há um estudo da Universidade de Nova York que mapeou os diretores formados pela academia com outros novos diretores que começaram a trabalhar na mesma época. A constatação foi que as escolas com baixo desempenho que foram assumidas por nossos ex-alunos conseguiam obter melhores resultados em artes em língua inglesa. Em matemática, diminuiu muito a lacuna de aproveitamento que havia entre essas escolas carentes, com professores mais inexperientes e que foram assunidas por nossos ex-alunos, e as que historicamente tinham resultados melhores por estarem em regiões mais favorecidas. Deu tão certo, que, neste momento, um em cada seis diretores da Cidade de Nova York é um ex-aluno da academia.

E a satisfação dos diretores?

O índice de satisfação do treinamento que fazemos com os diretores no primeiro ano deles é bastante alto. Está na casa dos 90% de aprovação.

Há alguma parte do trabalho que vocês desenvolveram que é ministrada a distância?

Apenas em outras cidades, distritos e estados. Quando trabalhamos com o estado do Missouri, desenvolvemos módulos de treinamento on-line porque eles tinham treinadores que trabalhavam com novos diretores de escola, mas queriam ofercer capacitação para esses seus treinadores. Mas estamos pensando no que mais poderíamos fazer para desenvolver o ensino a distância.

No Brasil, a situação mais comum é oferecer capacitação aos diretores depois que já foram selecionados, seja por concurso, eleição ou indicação. O que você acha disso?

Respondo com uma pergunta: quando essas pessoas são selecionadas, seja de que forma for, como se sabe que elas serão capazes de realizar o trabalho? Como saber se estão preparadas para dirigir uma escola?

13%

foi a taxa de reprovação no ensino médio, entre escolas públicas e privadas, em 2011. Um aumento de 5% em relação a 2010

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