O docinho carioca do padre Feijó

Diversas vezes o padre Diogo Antônio Feijó, ministro da Justiça de 1831 a 1832 e regente do Império entre 1835 e 1837, foi visto andando na Rua das Violas, hoje Teófilo Ottoni, no centro do Rio de Janeiro, a caminho da casa do cônego Geraldo Leite Bastos, seu colega de vida religiosa, amigo pessoal, correligionário político e irmão de Maçonaria. Durante a visita, os dois trocavam idéias sobre o Brasil, bebiam limonada açucarada ou café de coador e se deleitavam com um docinho chamado mãe-benta. Os mexeriqueiros diziam que a gula era na verdade o pretexto do encontro. O escritor e autor teatral Guilherme Figueiredo, no livro Comidas, meu Santo! (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1964), acrescenta que o docinho era uma especialidade de Dona Benta Maria da Conceição Torres, mãe do cônego Bastos. A receita, patrimônio da doçaria carioca, é reproduzida até hoje. Leva farinha de arroz, leite de coco ou coco ralado, manteiga, ovos e, naturalmente, açúcar. Coincidentemente, o apelido da ascendente do cônego Bastos era Mãe Benta. Entretanto, apesar dos registros históricos afirmarem que ela foi a sua inventora, pode ter criado uma variação diferenciada da receita. Afinal, no Brasil colonial e imperial existiram outros docinhos com o mesmo nome e ingredientes assemelhados, vendidos em tabuleiros pelas negras escravas, nas ruas do Rio de Janeiro e outras cidades nacionais. Mas ninguém superava em excelência o elaborado pela mãe do cônego Bastos. Nem as religiosas do Convento da Ajuda - primeiro mosteiro carioca para mulheres, construído no século 18 - conseguiam fazê-lo tão bem. Renomadas confeiteiras, elas garantiam seguir a mesma receita, mas o povo achava diferente. O Convento da Ajuda, igualmente no centro do Rio de Janeiro, preparava doces elogiadíssimos, antes do surgimento dos famosos confeiteiros na cidade. ''''Não tinham aparecido o Canceller, o Guimarães, o Francioni, o Neves do largo do Capim, a viúva Castagnier do Braço de Ouro (Rua dos Ourives), o Castelões, o Deroche, o Camarinha, o Justina da Rua da Cadeia etc.'''', observa o historiador José Vieira Fazenda, em Rio de Janeiro em Prosa e Verso (Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, Coleção Rio Quatro Séculos, v. 5, Livraria José Olympio, Rio de Janeiro, 1965). ''''Nos copos-d''''água (merendas oferecidas aos amigos), doces que não viessem da Ajuda não tinham valor algum''''. O delicioso mãe-benta disputava as preferências com o bom-bocado, suspiro, canudo desfolhado, filhó, pastel de Santa Clara e a baba-de-moça, entre outras guloseimas. Por algum tempo, foi o mais prestigiado. As negras escravas o vendiam sob as ordens de suas senhoras. Era cantado em prosa e verso. ''''Mãe-Benta, me fia um bolo?/Não posso senhor tenente/Os bolos são de iaiá/Não se fia a toda gente''''. Apesar da semelhança onomástica, não apresenta nenhum parentesco com o Nhá Benta, sucesso da indústria Kopenhagen, de São Paulo, lançado em 1950 com o nome inicial de Pão de Açúcar, irmão de doces estrangeiros e combinando marshmallow, wafer, chocolate e açúcar. Já o mãe-benta leva dois ingredientes conhecidos há muito tempo dos brasileiros: leite de coco e farinha de arroz. Curiosamente, o arroz deu origem a poucos doces por aqui. Em nosso país, os preciosos grãos dessa planta são cultivados desde o século 16. Em 1587, vicejavam em lavouras dedicadas a eles na Bahia e, em 1745, no Maranhão. Mas apenas no ano de 1766 Portugal autorizou a instalação da primeira descascadora de arroz, justamente no Rio de Janeiro. Só a partir dessa época começaram a ser introduzidas receitas à base de seus grãos. A mais famosa é o arroz-doce ou arroz-de-leite. Existem suficientes documentos históricos sobre o padre Feijó. Homem público controvertido, mas governante enérgico e corajoso, reformou o Exército, preconizou a necessidade da imigração, disciplinou a instrução primária e defendeu a abolição da escravatura, uma posição ousada para a época. Nasceu e morreu na cidade de São Paulo. Por outro lado, são escassos os registros sobre o cônego Bastos. Vieira Fazenda o descreve como ''''tipo de lealdade, de dedicação a amigos, de amor filial, caridoso, humanitário, modesto e grande patriota, sem ambições''''. Em 1842, achava-se deportado em Lisboa, por razões políticas. Nessa época, trocou pelo menos uma carta com o correligionário padre Feijó - sobre o qual acabou escrevendo uma biografia. Faleceu no Rio de Janeiro, no posto de oficial-maior da Secretaria do Senado. Quanto à Mãe Benta, as informações são ainda mais precárias. Vieira da Fazenda afirmava ter sido ''''mulher de cor preta, que vivia de fazer doces''''. Mas o historiador Carlos Augusto Ditadi, do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, apresenta uma ressalva. ''''Há de se estranhar o nome dela que não parece ser de pessoa de origem afro-brasileira'''', diz. Faleceu em 1851 e a sepultaram no cemitério São Francisco de Paula, hoje conhecido como Catumbi, no Rio de Janeiro, inaugurado no ano anterior para acolher as vítimas da febre amarela. Só em 1850 recebeu cerca de 3 mil corpos de pessoas dizimadas pela epidemia. Mãe Benta poderia ter sido uma de suas vítimas. Seu docinho seguiu conquistando fãs, inclusive estrangeiros. O presidente da república francesa Paul Doumer e o historiador italiano Guglielmo Ferrero, que o conheceram no início do século 20, encantaram-se com seu sabor. DOÇURA NACIONAL Mãe-benta 40 unid. médio 1h30 minutos Ingredientes 12 gemas 2 claras 2 e 3/4 xíc. (chá) de açúcar 2 e 3/4 xíc. (chá) de manteiga 2 e ½ xíc. (chá) de farinha de arroz 1 xíc. (chá) de leite de coco Manteiga para untar Preparo Bata muito bem as gemas com as claras e o açúcar, até crescerem, ficando leves e esbranquiçadas. Coloque a manteiga e continue batendo até homogeneizar. Junte a farinha de arroz, aos poucos, alternando-a com o leite de coco.Bata até o composto ficar leve e homogêneo. Disponha a massa em forminhas de empada previamente untadas com manteiga, arrume-as em uma assadeira e leve ao forno preaquecido a 180ºC, por cerca de 40 a 50 minutos. Desenforme as mães-bentas ainda mornas. Calorias: 443 kcal (cada)

Dias Lopes, jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 05h34

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