O enigma Borgonha 2007

Na hierarquia das recentes safras do Borgonha tinto, poucos colocariam a 2007 no grupo de elite. Num primeiro contato, os vinhos parecem muito pálidos, talvez até um pouco aguados. Alguns fãs da Pinot Noir, densa e poderosa em seus toques de fruta, talvez não dediquem aos 2007 mais que um gole e um rápido olhar.

Eric Asimov, O Estado de S.Paulo

11 Março 2010 | 03h38

Eu estava entre os que inicialmente viam a safra como ligeira. Mudei de ideia. No ano passado comecei a achar que os 2007 de bons produtores não só proporcionam momentos de prazer antecipado, mas vão envelhecer bem e oferecer grandes oportunidades para se explorar as sutis diferenças entre os variados terroirs do Borgonha.

Em suma, os 2007 são paradoxais. Embora a safra não esteja entre as grandes, os vinhos vão demonstrar amplamente o que existe de grande no Borgonha. Na misteriosa alquimia da região, os vinhos raramente se comportam como se espera.

"Não é uma safra de corpo, fruta e taninos em quantidade, mas de finesse e delicadeza", disse Aubert de Villaine, o gentil diretor do Domaine de la Romanée-Conti, numa degustação em Nova York, semanas atrás. Falava especificamente dos próprios vinhos, que estão entre os mais valorizados do mundo. Mas o que disse se aplica a toda a safra.

"São vinhos ariscos - você agarra, eles escapam, agarra, escapam", explicou Aubert, acrescentando (o eterno francês): "São como as mulheres".

Safras, frequentemente, acabam julgadas de modo simplista, na Borgonha e em qualquer parte. O que se discute é se ela é "grande". Tudo o mais tende a ser descartado.

Em torno da última década, três safras têm sido consideradas excelentes para os Borgonhas: 2005, 2002 e 1999. A 2000 é apontada como medíocre. Querem saber que safra mais me agradou nos últimos anos? Como adivinharam que era a 2000?

De fato, enquanto os Borgonhas das safras incensadas continuam impassíveis e indecifráveis, os da 2000 são flexíveis, abertos, deliciosos. Tornam-se escolhas muito melhores nas cartas de vinhos, além de mais baratos. Eu colocaria os da 2007 na mesma categoria.

"Na França, a 2007 é conhecida como safra de restaurante, pelo prazer rápido que proporciona", disse Jean-Marie Fourrier, do Domaine Fourrier, em Gevrey-Chambertin. Mas ele adverte o consumidor para ficar esperto. Os produtores enfrentaram um calor intenso no início da estação, seguido de um verão miseravelmente frio, úmido, que causou problemas de fungos. Só os que trabalharam seus vinhedos com precisão e foram implacáveis na seleção das uvas puderam produzir bons vinhos em 2007.

"Conheça seu produtor", disse Becky Wasserman, uma negociante americana de vinho na Borgonha, repetindo o primeiro mandamento do comprador.

Alguns especialistas em Borgonha, que provam os vinhos nos domaines antes de serem distribuídos, perceberam antecipadamente o valor da safra. Stephen Tanzer, em sua newsletter International Wine Cellar, expressou-se assim: "Se eu fosse um rato de laboratório numa gaiola, beberia essa coisa até me afogar."

Um bom modo de partir.

Eric Asimov é colunista de vinhos do New York Times

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