O enochato e o Pato

Todo ano é igual, mas sempre diferente. O dilema da escolha dos vinhos para a comilança natalina é insolúvel. Muitos litros já escorreram na discussão. Eu não gosto de peru, é ave para quem não gosta de ave, carne para vegetarianos. Tenho mesmo dúvidas de que peru exista. O defumado? Tem gosto por causa da defumação, aquela massa rosa sem sabor. Até como, não faço desfeita se convidado, recomendarei vinho para acompanhar. Mas meu Natal só tem peru se for inevitável. Há uma explicação genética para o fato: sou de uma família bem portuguesa, nunca houve peru na minha ceia. Conheci a penosa aqui, em São Paulo, já adulto. Sou da terra do porco e do bacalhau.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2012 | 02h08

Contra todos os esnobes, gosto mesmo é do leitão e seus parentes (bate o sino, pequenino, suíno de Natal): o pernil suculento, dourado, assado e interminável. Dura a ceia, o almoço e ainda vai embora em tupperwares para sanduíches da família toda; e o tender. Como bom farofeiro, preciso de muita farofa. Sou da escola mais sequinha, com manteiga e ovos somente, mas tem o partido da úmida, com passas, cebola, até a violência da banana. E os doces: muito chocolate, panetone e frutos secos, castanhas, amêndoas, nozes, avelãs.

O que beber com esse carnaval alimentar? A resposta é complexa e envolve inúmeras garrafas, se você for um harmonizador freak e curioso experimentador. Fui pedir ajuda ao Manuel Chicao, da Adega Alentejana, porque ele é uma espécie de embaixador gastronômico de Portugal. Sempre que tenho dúvidas lusitanas recorro a ele. Abrimos uma dezena de garrafas, azeites de três regiões e latas de sardinha e ovas de sardinha, e queijo. De repente, tive uma pré-ceia de Natal no improviso - e confirmei dúvidas (é um oxímoro mesmo).

Vou dizer dos meus favoritos. Com as carnes de porco, acredite, os Rieslings, alemães, austríacos ou alsacianos, vão muito bem. Mas a uva tinta Castelão, ganhou um lugar. Há uma impercebível doçura na carne branca de porco que cola na imperceptível (nem sempre) doçura dos Rieslings, e a acidez do vinho ataca bem a gordura porcina. Pense no que bebem os próprios alemães, austríacos e franceses alsacianos com sua comida. Pois é, contra tradições seculares não há muito que brigar. Chucrute, joelho de porco, costeletas, embutidos, todos pedem Rieslings.

Para doces e panetones, frutos secos e castanhas, nada melhor que vinhos fortificados com traços oxidativos: Porto tawny, Madeira, Jerez Amontillado. Manuel me deu a primeira puxada de tapete vinícola: um Moscatel dez anos. Sublime.

Com chocolate? Um destilado! Experimente uma dose de uísque ou conhaque com chocolate (lembrando que eles costumam ser recheio de bombom, há alguma sabedoria nisto). Todo mundo harmoniza chocolate com vinhos doces. Eu, confirmei a escolha pelos uísques blended (nada dos defumados single malts, favoritos em outras situações) comendo no Emiliano recentemente. O experiente sommelier Gianni Tartari propôs uma brincadeira com um Late Harvest, um botritizado e um brandy de Jerez (um destilado). Quem melhor encontrou os chocolates do chef patissier Arnor foi justamente o brandy. Portanto, com chocolates: uísque, conhaque, armagnac. Esqueça o vinho e se delicie.

E ainda aprendi outra, com o untuoso queijo da serra da estrela, o mais famoso queijo português, eu logo declamei: um branco! Qual! Um 100% Touriga Nacional fez o serviço muito bem, ácido no ponto, gorduchinho e saboroso, aromático, mas com taninos nada presentes. Foi o segundo ponto marcado com elegância pelo Manuel.

Mas, e se você é normal, não um enochato clássico como eu, nem tem a disposição e tempo que tivemos para brincar, está só querendo celebrar sua ceia sem complicações, abrindo garrafas de um mesmo vinho e sendo feliz? Se eu precisasse resumir toda a barafunda alimentar do período em uma só escolha, como agiria? Procuraria um vinho com muita fruta, mais para o lado do matador de sede, sem muitos taninos, que aguentasse ser servido frio (não costuma nevar nos nossos Natais...nfelizmente). Vinhos de uvas como a Gamay, Pinot Noir mais simples ou a Baga da Bairrada como a tratada por Luís Pato no seu Rebel. Um vinho para a família toda, que agradará ao tio que pensa que vinho só pode ser tinto e à avó nostálgica de vinhos frutados, mas não irritará o cunhado cri-cri que fez curso de degustação e só bebe europeus.

Pois me decidi: se é para resumir em um único estilo, até pelo seu desenho e apresentação, que dão um tom festivo e de dane-se o ano e a pompa, meus vinhos do Natal vão ser o Pato Rebel e o delicioso vinho de Paulo Laureano, o Tradições Antigas, que ainda enfeita a mesa com sua moringa de barro. A minha, vazia, está agora com água fresca na cabeceira. Vinhos que também serão assunto pela embalagem, naquela hora em que bate o cansaço de falar de comida.

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