O espírito alegre e atemporal de Time Out

CDs e DVD lembram os 50 anos da revolução do quarteto de Dave Brubeck

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

02 Dezembro 2009 | 00h00

Mil novecentos e cinquenta e nove foi um ano e tanto para o jazz. O saxofonista John Coltrane lançou o primeiro disco contendo somente composições próprias, Giant Steps. O baixista Charles Mingus exibiu o LP Mingus Ah Um. O sax de Ornette Coleman mergulhou no free jazz. Sonny Rollins deu um tempo nas apresentações para praticar um pouco mais - à época, tornaram-se lendárias as caminhadas tocando o sax tenor pela Williamsburg Bridge. E o trompetista Miles Davis gravou Kind of Blue, o álbum mais vendido da história do gênero.

Mas um jazzista chamou mais atenção do que todos eles. Dave Brubeck, que faz 89 anos daqui a quatro dias, e seu quarteto ensinaram que quebrar regras era algo popular. A vanguarda mostrou-se divertida e calorosa. O fenômeno se devia à gravação de Time Out, primeiro disco de jazz a vender mais de 1 milhão de cópias, ora lançado em versão comemorativa de 50 anos. Time Out - 50th Anniversary Legacy Edition (Columbia Records) traz, além do disco fundamental, um CD com oito composições gravadas no Newport Jazz Festival em 1961, 1963 e 1964, mas nunca lançadas, e um DVD em que o pianista fala dos detalhes da gravação. A entrevista de Brubeck, realizada em 2003, e o texto do encarte, escrito por Ted Gioia, são elucidativos.

Eles mostram que, apesar de seis das sete músicas do álbum serem de Brubeck (Blue Rondo à la Turk; Strange Meadow Lark; Three to Get Ready; Kathy"s Waltz; Everybody"s Jumpin"; e Pick Up Sticks), Time Out é uma criação coletiva. Os compassos alternativos, fugindo ao padrão 4/4 do jazz, e os experimentos rítmicos de Brubeck não seriam nada sem o lirismo do sax alto de Paul Desmond (autor do hit Take Five), a versatilidade do baterista Joe Morello e a segurança do contrabaixo de Eugene Wright (o único negro).

O disco tinha tudo para ser recusado. Não apresentava nenhum standard nem era dançante. A capa de Neil Fujita trazia uma pintura. Mas o produtor Teo Macero, o mesmo de Kind of Blue, e Goddard Lieberson, presidente da gravadora, aceitaram Time Out. E o público amou Take Five e Blue Rondo à la Turk. As pessoas queriam o mesmo que Brubeck - que a música soasse bem. O novo podia ser prazeroso.

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