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O fantasma do Coachella

Depois do festival californiano, o rapper holográfico Tupac Amaru Shakur abre os portões para shows do além com Mozart, John Lennon, Jimi Hendrix...

Juliana Sayuri, de O Estado de S.PauloU,

21 Abril 2012 | 17h08

Aconteceu no deserto da Califórnia. Depois que o sol se pôs na meca indie, o Vale Coachella se tornou templo de Tupac Amaru. Não o lendário guerreiro inca, último bravo no front contra a conquista espanhola lá nos 1500, mas o rapper nova-iorquino do Brooklyn, herdeiro dos revolucionários Afeni Shakur e Billy Garland, dois dos furiosos Panteras Negras dos anos 60. E a aparição não era miragem. Quer dizer, era: Tupac Amaru Shakur, a.k.a. 2Pac, está morto há mais de 15 anos.

 

2Pac ascendeu ao palco principal do Coachella Valley Music & Arts Festival às 23h38 de domingo. “What the fuck is up, Coachella?”, bradou o músico, morto numa sexta-feira 13 de 1996, três anos antes da primeira edição do Woodstock hipster de Indio, cidade a 3 horas de Los Angeles.

 

Descamisado e com os gominhos do abdome perfeitamente esculpidos, 2Pac vestia tatuagens impecáveis, tênis estilo Timberland, anéis, um crucifixo brilhante e baggy jeans que serviriam tão bem nos manos de 1990 quanto nos de 2020. Inteiraço e inteirinho em 3D, o finado rapper voltou à vida por cinco minutos graças aos mestres anfitriões Snoop Dogg e Dr. Dre. Mas a ressurreição custou caro: US$ 400 mil, segundo a MTV americana; US$ 10 milhões, segundo o tabloide britânico The Mirror.

 

O artista gingou e rapeou os versos de Come With Me/Hail Mary e 2 of Amerikaz Most Wanted/Gangsta Party, ao lado de Snoop Dogg, ofuscado na performance. Enquanto o rapper real deslizava na sombra, um 2Pac reloaded e iluminado se movia no melhor estilo malandro americano. O público impressionado, porém, não se rendeu à histeria: ao clamor eufórico, preferiu a perplexidade. “What the fuck?!” admirados se tornaram a prece da vez no vale dos fiéis do hip hop diante do realismo do holograma - o corpo e a voz têm DNA 100% digital, produção autorizada por mamma Afeni. Depois das canções, o músico se desfez em milhares de feixes de luz cintilantes no centro do palco, como faria qualquer assombração musical que se preze.

 

A “outra” despedida foi em 1996. No sinal vermelho da Flamingo Road, em Las Vegas, na BMW do big boss Suge Knight, da produtora Death Row Records, 2Pac recebeu quatro balas no corpo. Sete dias depois, o músico de 25 anos foi declarado morto. Arquivado o crime sem respostas oficiais, não faltaram teorias conspiratórias sobre a morte de 2Pac, que escorou as dimensões conquistadas por Elvis Presley no hall da fama in memoriam.

 

Foram mais de 15 livros, 5 documentários e 10 álbuns post-mortem. Nos últimos anos de vida, o gangster rapper foi preso diversas vezes por confusões, principalmente com o arqui-inimigo The Notorious B.I.G. (1972-1997), da gravadora Bad Boy Records. Foi ainda acusado e condenado por abuso sexual em 1995, época mesma em que lançou o celebrado disco Me Against the World. Uma das teorias diz que 2Pac forjou a própria morte para driblar os muitos inimigos - e o músico estaria vivendo milionário e feliz na ilha de Fidel. Até que Coachella o despertou da paz eterna.

 

O fantasma holográfico é obra da americana Digital Domain, feita como um misto de ilusão de ótica, técnicas do britânico John Pepper, telas de mylar e outras peripécias tecnológicas futurísticas. Mas os poderosos chefões do rap querem mais. Dr. Dre e Snoop Dogg pretendem reanimar 2Pac no compasso de uma megaturnê mundial, que também teria a participação dos rappers - vivos - Eminem e 50 Cent. Também querem trazer Jimi Hendrix e Marvin Gaye de volta. Por enquanto, sem detalhes. “Quero preservar a magia por mais um tempinho”, disse Dre em nota ao Aliás.

 

A magia inspirou um line-up (fictício, por ora) estrelado por hologramas de Michael Jackson, Mozart e The Clash para o próximo festival. “Será que John Lennon poderá dar uma passada no show de Paul McCartney? Ou Kurt Cobain fará uma turnê com o Nirvana?”, provoca Jason Lipshutz, da Billboard. Para muitos, seria uma heresia da santidade musical: os imortais serão literalmente imortais? “Também tive inquietações éticas ao ver o vídeo. Esse é o futuro? Espero que não. Os caras mortos já são muito importantes para a história da música. Não sei quem gostaria de ver um simulacro deles dançando no palco”, critica John Perry Barlow, fundador da Electronic Frontier Foundation e um dos principais pensadores da cultura digital.

 

Hoje à noite, Snoop Dogg e Dr. Dre retornam à tenda principal do deserto californiano. Não disseram se a noite será mágica de novo. Por enquanto, R.I.P., 2Pac.

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