O fim do sonho de construir uma ferrovia própria em SP

Museu Ferroviário de Atibaia, com peças dos séculos 19 e 20, fecha portas e leiloa máquinas

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

04 Dezembro 2009 | 00h00

O Museu Ferroviário de Atibaia, fundado em 1986, está fechado. As duas locomotivas, o bonde, os quatro vagões de passageiros, os dormitórios, os vagões-restaurante e o de correio, todos construídos entre 1893 e 1927, estão imóveis, guardados em um galpão, agora esperando novo destino, cujo leilão começou na sexta-feira passada. O museu, que recebia entre 500 e 1 mil visitantes por mês, não vai mais reabrir. Além da desativação de outro equipamento cultural, representa o fim do sonho do empresário que tentou reconstruir, em seu quintal, parte do patrimônio ferroviário paulista.

Por 23 anos, o museu particular funcionou na chácara do empresário José Augusto Roberto, de 66 anos, a 200 metros de onde passava a antiga Estrada de Ferro Bragantina (EFB), importante via de escoamento de açúcar e tabaco, desativada em 1967. No museu havia restaurante e lanchonete - em dois vagões-restaurante adaptados -, área expositiva com acervo fotográfico, utensílios de cozinha e banheiro, lustres, porcelanas, picotadores de bilhetes, entre 500 peças ligadas às linhas férreas paulistas, originais das companhias ferroviárias Sorocabana, Paulista, Bragantina e Mogiana.

Para abrigar o museu, Roberto construiu a própria estação - a Estação Atibaia, como a chamou, recriada exatamente como as Estações de Caetetuba e Maracanã, localizadas nos extremos do município, que receberam trens da Bragantina entre 1884 e 1967. "Tive o sonho de construir minha própria ferrovia, exatamente como eram as de antigamente, e mostrá-la a todos. É um sonho que agora termina", diz um conformado Roberto, recostado em um dos pinheiros que plantou às margens da ferrovia - linha férrea de 2.600 metros que, também, ele construiu, para passeios dentro da área do museu, com projeto de engenheiros da Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa).

"Foi o trabalho de uma vida", recorda, caminhando pelos trilhos. Para construir a sede, a ferrovia e para restaurar os trens, o empresário, proprietário da transportadora Coopertrans e de empresas de logística, investiu R$ 20 milhões. Na empreitada, vendeu parte significativa de seu patrimônio: quatro fazendas com 3,5 mil cabeças de gado no Tocantins, um dos prédios da Coopertrans na capital, além de uma usina de beneficiamento de borracha, vendida no fim da década de 1980. Na sexta, 4 dos 11 lotes de material ferroviário, avaliados em R$ 5,8 milhões, foram vendidos. Do material arrematado, sabe-se que os vagões-restaurante devem ir para Caçapava, para criar área de alimentação temática. Quanto à locomotiva - que fez seu último passeio na manhã de 28 de novembro -, um dos vagões de passageiros e os 2.600 metros de trilhos, também vendidos, ainda não se sabe o que será feito. "Meus vagões devem ir para Caçapava, para Aparecida, para Santos. Sei que aqui não ficam mais. E isso dói", lamenta o empresário.

A segunda fase do leilão será em 29 de janeiro - até lá, segundo o empresário, turistas que quiserem conhecer o museu serão recebidos, "como sempre foram". Mas as placas de sinalização turística que indicam o museu, segundo a prefeitura de Atibaia, serão retiradas nas próximas semanas.

"PENSAR NO FUTURO"

O motivo para o fechamento do museu e o leilão dos trens, segundo conta Roberto, foi financeiro - no ano passado, o empresário teve de desativar parte da transportadora por mudanças nas regras do transporte aéreo, que causou prejuízo e o forçou a demitir 200 funcionários. "Depois de tanto tempo convivendo com promessas de apoio de diversos prefeitos, mas sem nada efetivamente realizado, tive de começar a pensar no futuro. Trabalhei a vida toda, sempre tive condições de manter o museu. Mas agora, quando o futuro de minha família começou a ficar em risco, tive de capitular."

Seguindo projeto que os filhos apresentaram em 2008, Roberto decidiu que vai criar um condomínio industrial no terreno, de 300 mil m², avaliado em cerca de R$ 40 milhões. Embora fale com firmeza sobre o fim do museu, o empresário - que atribui a paixão por trens à infância na pequena Taiuva, onde avistava, ao cair da tarde, trens cruzando a ferrovia Sorocabana - não consegue evitar a emoção. Sentado em um banco na Estação Atibaia, Roberto olha para um exemplar do Correio da Noite, que anunciava, em 2 de junho de 1967: "Bragantina não cairá sem luta". "Acabou não acontecendo. Meses depois, a ferrovia foi arrancada sem dó", conta. "Não consegui evitar que a história se repetisse."

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