O fracasso da cúpula de Manaus

Seis chefes de governo sul-americanos, cada qual agindo por conta própria, deram um choque de realidade no presidente Lula, ao se ausentarem da cúpula dos países amazônicos sobre mudança climática, concluída sexta-feira em Manaus, para a qual ele os convidara pessoalmente. A reunião deveria definir uma posição comum do grupo de oito membros, além da Guiana Francesa, departamento de Ultramar do país europeu, para a próxima conferência mundial sobre o clima em Copenhague. Só o francês Nicolas Sarkozy e o presidente da Guiana (ex-inglesa), Bharrat Jagdeo, atenderam ao convite. Até o presidente do Suriname, Ronald Venetiaan, alegou problemas de agenda para ficar em casa. O mesmo fez o peruano Alan García. O colombiano Álvaro Uribe avisou que não poderia ir porque caiu do cavalo. O boliviano Evo Morales alegou que estava absorvido com questões políticas locais. O equatoriano Rafael Correa tinha viajado para a Bélgica.

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Nem sequer o venezuelano Hugo Chávez, que não perde uma, deu o ar de sua espaçosa graça. De última hora, avisou que teria de ficar em Caracas para se despedir do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e receber o palestino Mahmoud Abbas. Esvaziado, o encontro terminou sem a costumeira foto oficial dos participantes. Afinal, não ficaria bem para Lula e Sarkozy posar ao lado de uma penca de ilustres desconhecidos - os ministros que representavam os ausentes. A presença de Sarkozy não enganou ninguém. Quando Lula lhe perguntou quando poderia vir, respondeu que qualquer dia era bom. Pudera: ele está para vender ao Brasil 36 caças Rafale - um negócio de R$ 10 bilhões. Em setembro, antecipando-se à avaliação técnica da FAB (empresas americanas e suecas também fizeram as suas ofertas), Lula disse que preferia os jatos franceses. Se amanhã ele o chamar para uma conversa na Papuásia, Sarkozy irá correndo.

O presidente ainda tentou tapar o sol com peneira, ao dizer que "o documento que assinamos hoje (a Declaração de Manaus, que cobra dos ricos a fatura da preservação das florestas) tem a mesma validade que teria se estivessem presentes todos os presidentes", porque os seus ministros tinham plenos poderes para esse fim. Conversa. Ele conhece perfeitamente a importância dos símbolos na política e na diplomacia - nesse plano, nove líderes dando-se as mãos é muito diferente da patética cena em que um contrafeito Lula aparece segurando Sarkozy e o guianês Jagdeo. No seu discurso, o brasileiro achou que era o caso de fazer um afago nos faltosos. O documento, assinalou, "vai balizar o comportamento da América do Sul em Copenhague, sem que nenhum dos países abra mão de sua soberania". E ainda arrematou: "A soberania dos Estados é intocável." Não é bem assim, como se sabe. Quando se comprometem com um tratado internacional, as nações autolimitam a própria soberania.

No caso de Copenhague, os vizinhos em que Lula pensava não querem ser tangidos pelo Brasil - ou, menos ainda, ser caudatários da parceria franco-brasileira na matéria. Uma fonte do próprio governo brasileiro reconheceu que é nulo na região o interesse pelo tema das mudanças climáticas. Julgue-se como se queira essa atitude, mas ela é um exemplo dos inumeráveis obstáculos às pretensões de liderança do presidente Lula - dos quais parece não se dar conta. Decerto ele imagina que a nova imagem do Brasil no mundo, combinada com o seu inquestionável carisma, lhe confere uma voz de comando cujo alcance só depende da sua insistência em usá-la. Lula confunde as coisas, porém. Ele é paparicado pelos interlocutores estrangeiros, ou quando eles têm a ganhar com isso (caso de Sarkozy) ou quando isso não lhes custa nada (caso de Ahmadinejad). Mas as demonstrações gratuitas de prestígio cessam quando a realidade dos interesses nacionais cobra o seu preço.

Desatento à diferença, Lula ficou se gabando em Manaus do papel do Brasil, ou seja, dele, em dissipar o ar de pessimismo em torno de Copenhague. Só depois de o País anunciar a sua meta de redução das emissões de carbono, tudo teria mudado. "Hoje o presidente Obama já tem um número. Não é o que eu queria, mas é um número, e a China também tem um", comemorou. Ele ainda comparou a negociação do clima com a construção da Muralha da China: "Alguém teve de colocar a primeira pedra." Mas nem Hugo Chávez, com quem vive aos afagos, estava lá para aplaudir o elogio em boca própria.

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