O futuro ameaçado

Ruim para todos, a crise no mercado de trabalho está sendo especialmente hostil para os jovens. Uma clara indicação do aumento proporcional de jovens entre os desempregados na Região Metropolitana de São Paulo foi dada pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), feita pela Fundação Seade e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que constatou o crescimento muito mais rápido da desocupação entre pessoas com 16 a 24 anos do que entre os trabalhadores em geral. A taxa de desemprego entre os jovens alcançou 36% em abril, enquanto o desemprego médio na Grande São Paulo ficou em 16%.

O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2016 | 05h00

Índice de desemprego tão expressivo entre os jovens só havia sido constatado pela PED em abril de 2004. Naquela época, a economia brasileira começava a se recuperar do choque que enfrentara no ano anterior por causa da chegada ao poder de um governo chefiado pelo PT. Há, porém, uma diferença importante entre a situação do mercado de trabalho no início da administração petista e a que se observa hoje. Há 12 anos, o desemprego médio na Grande São Paulo estava em 20%, bem mais alto do que o índice atual. Por isso, hoje, “a taxa de desemprego dos jovens é muito mais representativa”, observou o economista da Fundação Seade Alexandre Loloian, em entrevista ao Estado.

É normal que, em períodos de crescimento do desemprego, mais jovens passem a procurar trabalho, com o objetivo de complementar a renda familiar comprometida pela demissão de seu chefe. O fato de as demissões serem mais numerosas na construção e na indústria de transformação, que mais empregam chefes de família, explica esse fenômeno.

Quando mais jovens procuram emprego, crescem simultaneamente a população economicamente ativa e o número de desempregados. Esse duplo crescimento tende a elevar também o índice de desemprego. Tal fenômeno deve estar ocorrendo na Grande São Paulo.

Mas outros números mostram que o desemprego entre jovens é consequência também das demissões. A PED mostrou que, nos últimos 12 meses, foram fechados na Região Metropolitana cerca de 200 mil postos para trabalhadores jovens. Ou seja, quem procura emprego tem dificuldade para encontrá-lo e quem tem um corre o risco de perdê-lo.

É provável que também entre os milhões de brasileiros desempregados esteja crescendo a proporção de jovens. A mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE mostrou que, em março, havia mais de 11 milhões de desempregados no País. Entre eles, 43,2% tinham entre 14 e 24 anos (a idade mínima empregada pelo IBGE é menor do que a utilizada pela pesquisa Seade-Dieese). O quadro era bastante parecido na Região Sudeste: os jovens correspondiam a 43,1% dos desempregados.

O aumento das demissões no mercado formal – empregados com carteira assinada e direitos assegurados – em abril, quando foram dispensados mais 62.844 trabalhadores, mostra que persiste a deterioração do mercado de trabalho.

A falta de experiência é um obstáculo natural para o acesso dos jovens ao mercado de trabalho, e tende a manter o índice de desemprego entre eles mais alto do que para a média dos trabalhadores. Em períodos de crise, como o atual – o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 3,8% no ano passado e deve registrar resultado semelhante em 2016 –, soma-se a falta de oferta de trabalho, o que empurra muitos jovens para a informalidade ou lhes traz incertezas e desilusões.

O índice de desemprego entre os jovens vem crescendo à medida que a crise se aprofunda e se estende. Em 2014, a taxa de desemprego entre eles era de 23%, no ano passado subiu para 28% e agora já afeta mais de um terço dos trabalhadores jovens. Não há, porém, entre dirigentes sindicais e autoridades, sinais de preocupação com esse fenômeno social grave, que pode comprometer o futuro de muitas pessoas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.