Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O G-20 e o crescimento

A declaração das principais economias do mundo insiste em que é necessário promover as reformas para acelerar o processo e lhes dar eficácia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2016 | 21h00

A solene Declaração de Hangzhou por meio da qual os chefes de Estado do Grupo dos 20 (G-20) sintetizaram seus objetivos é uma peça consistente que reúne certo número de projetos concertados de ação cujo objetivo é garantir o crescimento econômico.

Ninguém encontra nos seus 48 parágrafos nenhuma declaração bombástica. Podem dar a impressão de que não passam de palavras edificantes, mas isso é ledo engano. Também pareciam meras declarações de intenção as recomendações feitas há alguns anos pelos senhores do mundo de ataque à corrupção e a todas as formas de financiamento ao terrorismo. E, no entanto, os efeitos vieram logo em seguida. Paraísos fiscais começaram a ser pressionados a não dar abrigo a capitais sujos e a operações de lavagem de dinheiro e, por toda parte, até mesmo na Suíça, os depósitos de origem suspeita começaram a ser lastreados e denunciados.

Ninguém discorda, como está no documento, de que seja preciso estimular o crescimento econômico, a criação de empregos, a distribuição de renda, colocar em marcha as reformas, combater a corrupção e respeitar o meio ambiente – e tudo isso, sem recorrer a medidas protecionistas. A Declaração de Hangzhou reconhece, ainda, que não basta injeção de moeda nos mercados pelos bancos centrais, mas que é preciso acionar políticas fiscais equilibradas. O problema é como fazer isso.

Nos anos 60, a partir das advertências do chamado Clube de Roma, imaginava-se que o grande fator limitador do crescimento global era a oferta limitada e não renovável de matérias-primas. Com os anos, viu-se que não passava de alarme falso. As novas descobertas, a reciclagem e os avanços tecnológicos puseram à disposição dos produtores uma abundância nunca vista e praticamente infindável de insumos e matérias-primas. Há quase dez anos, os preços das commodities vêm caindo mais por excesso de oferta do que por queda do consumo.

Também a partir dos anos 60, o excessivo aquecimento do Planeta produzido por emissões de CO2 (efeito estufa) passou a ser percebido como grave fator limitador. É o que se tenta corrigir hoje por meio da substituição dos combustíveis fósseis por fontes limpas de energia e pela preservação do meio ambiente.

Ao longo do século 20 até início dos anos 90, prevaleceram em grande parte do Planeta quase insuperáveis restrições ideológicas aos investimentos. No entanto, o fim da guerra fria, a queda do Muro de Berlim, a fragmentação do império soviético e o enorme avanço da China mostram que essas restrições já não fazem sentido.

Também não faltam capitais ao redor do mundo que possam ser acionados para alavancar o desenvolvimento. E, no entanto, eles não chegam e onde chegam tendem a produzir concentração de riquezas. Assim, a pobreza, a má distribuição de renda ou, simplesmente, a falta de regras confiáveis de utilização desse capital continuam emperrando o crescimento econômico, tanto nos países ricos como nos países pobres.

A declaração do G-20 insiste em que é necessário promover as reformas para acelerar o processo e lhes dar eficácia. Aí contam mais as micropolíticas a serem implantadas país por país do que as declarações dos poderosos do mundo. É esperar para ver acontecer.

Confira

Correção

O secretário-geral do Itamaraty, embaixador Marcos Bezerra Abbott Galvão, enviou a esta Coluna algumas observações que ganham tratamento de correção ao texto publicado neste sábado (Em busca de uma atitude).

Continua firme

O Grupo dos 7 (G-7) não se transformou em Grupo dos 20 (G-20), como ficou dito na Coluna. O G-7 ainda existe, com um foco mais político do que econômico. Seu último encontro aconteceu em maio deste ano, no Japão, quando Obama se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a visitar Hiroshima.

Começou antes

O G-20 já existia antes de 2008. Funcionava desde 1999 como instância de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais. Os canadenses foram os primeiros a propor a transformação do G-20 em foro de chefes de Estado, como aconteceu em 2008.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.