Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

O genro impronunciável

Iñaki Urdangarin meteu-se em corrupção, encrencou a mulher e está levando para o atoleiro o próprio rei da Espanha, seu sogro

GERMÁN ARANDA*,

06 de abril de 2013 | 16h51

Nunca se viu, num tabuleiro de xadrez, um rei posto em xeque pelos próprios bispos. O rei Juan Carlos I e a coroa espanhola vivem, contudo, seus piores dias desde que a família Bourbon recuperou o trono após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975. A causa é um escândalo de corrupção que atingiu primeiro o genro de Juan Carlos, Iñaki Urdangarin, e desde quinta-feira envolve também a mulher deste e filha do rei, a infanta Cristina de Bourbon.

O juiz José Castro, encarregado do processo, referiu-se a mensagens eletrônicas exibidas pelo ex-colaborador de Urdangarin na trama de corrupção, Diego Torres, como indícios de "cooperação" ou "cumplicidade" da infanta com os crimes do marido, o que a levaram finalmente a ser investigada. A casa real manifestou "surpresa" com a mudança de posição do juiz, que no início do processo não encontrara argumentos de peso para indiciar a infanta. Mesmo que a promotoria anticorrupção tenha recorrido da acusação considerando-a "discriminatória" e o ministério público tenha suspendido os depoimentos da infanta até nova revisão da Audiência Provincial, com a recente acusação contra Cristina rompe-se a aura de inviolabilidade que envolve a família desde que Juan Carlos assumiu a coroa em 1975. Pela primeira vez a Justiça acusa diretamente um membro da família real. De qualquer modo, essa acusação não deve afetar a vida cotidiana da família, que havia afastado Cristina e seu marido da vida pública mais de um ano atrás.

Na ocasião já havia explodido nas mãos da monarquia a bomba que a levaria à sua maior e mais profunda crise. Em dezembro de 2011 Iñaki Urdangarin, antes um genro e marido exemplar, foi condenado pelo juiz Castro por evasão de impostos, fraude fiscal, prevaricação, falsidade documental e malversação de fundos públicos quando presidiu o Instituto Nóos, organização de eventos esportivos sem fins lucrativos.

Entre outras irregularidades, Urdangarin teria embolsado a quantia de 5,8 milhões entre 2004 e 2006, período em que presidiu o instituto. Em seu depoimento na audiência de fevereiro de 2012, ele responsabilizou o ex-colaborador e administrador da instituição Diego Torres por todas as irregularidades, incluindo o uso de seu nome para tirar dinheiro da fundação. "Não sei, isso deve ser perguntado ao senhor Torres", respondeu, simplesmente.

Indignado com tal acusação e principalmente com o fato de sua mulher ter sido denunciada e não a infanta Cristina, embora esta fosse porta-voz da instituição, "por ser quem era" (a filha do rei), Torres a partir daí iniciou uma divulgação de mensagens eletrônicas cujo último episódio levou ao indiciamento da infanta e também ao questionamento da figura do rei como possível conhecedor e aprovador d as irregularidades cometidas no instituto. O próprio Torres garantiu que os 200 e-mails que tinha em mãos (dos quais entregou 60 à Justiça) eram "bombas atômicas" que iriam desestabilizar a família real. Em alguns e-mails, de fato, vem mencionada a aprovação do rei em algumas atividades. De acordo com Torres, no instituto "as decisões eram tomadas pelos cinco membros do conselho diretor, que incluía a infanta". E todas as atividades seriam realizadas "com o consentimento do rei".

A publicação dos próximos e-mails poderá incluir, segundo Torres, aspectos mais "íntimos", com potencial para destruir um casal que, até agora, tem se mostrado unido diante da adversidade. A infanta não se separou do marido no momento mais grave da crise a ponto de a família real tê-la afastado, com ele, da vida pública. Nos corredores da casa real comenta-se que "a infanta não pode deixar de ser filha do rei", informou recentemente o jornal El Mundo. O jornal revelou também que fontes judiciais e outras próximas da família indicam que Cristina já poderia estar preparando sua separação diante da possibilidade de serem divulgadas mensagens eletrônicas que revelem a infidelidade do marido.

O passado impoluto e a elegante imagem de Iñaki Urdangarin não sugeriam que o genro ideal se converteria no espinho mais dolorosamente cravado no coração da família real. Nascido em 1968, filho de um engenheiro e banqueiro basco e de uma belga de ascendência nobre, ele foi sempre um jovem exemplar, dedicado ao esporte.

Campeão de handebol profissional no Barcelona, com 56 títulos que tornaram a equipe a melhor da história da Europa, também se destacou em disputas que resultaram em medalhas de bronze para a seleção espanhola nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996 (onde conheceu a infanta quando ela foi cumprimentar a seleção) e em Sydney em 2000, competição com a qual encerrou sua carreira de desportista de elite. Seus companheiros de equipe lembraram sua grande devoção à banda Queen e o definiram como um homem tranquilo e organizado que jamais se comportou mal em campo nem fez nenhum inimigo. Também elogiaram suas habilidades na cozinha, especialmente com pratos à base de peixe. No Palau Blaugrana, onde ocorrem os jogos de handebol do Barcelona, uma enorme camiseta com seu nome e o número 7 nas costas está pendurada como homenagem ao ex-jogador.

Todos aprovaram quando, em 1997, o esportista de 1m96 entrou para a família real casando-se com a infanta. Quando, em 2000 ele abandonou o handebol, começou a carreira empresarial que o levaria ao inferno. Completou seus estudos de administração de empresas no Esade, onde conheceu Diego Torres, então seu professor. Em 2003, Urdangarin, duque de Palma, ingressa no Instituto Nóos, do qual se tornaria presidente em 2004, tendo Torres como braço direito, função que manteve juntamente com o cargo de vice-presidente do Comitê Olímpico Espanhol. Aí teve início o enriquecimento irregular de ambos, do qual o rei devia suspeitar quando enviou em 2006 um assessor a Barcelona para ordenar que o genro interrompesse suas atividades. Algumas irregularidades já haviam sido reveladas, sem muito alarde. De fato, logo depois ele ingressou na Fundación Telefónica, tornou-se seu assessor internacional e em 2009 transferiu-se para Washington para exercer o cargo.

A vida da infanta também está intimamente relacionada ao esporte (especialmente o esqui e a vela) e a uma carreira exemplar. Caçula dos filhos do rei, nascida em 1965 e sétima na linha sucessória, ela se dedicou a trabalhos sociais e às atividades oficiais, mas sempre com a máxima discrição, de modo que sua vida profissional nunca cruzou com a condição de membro da família real.

Ao formar-se em ciências políticas, Cristina tornou-se a primeira mulher da casa real espanhola a ter um diploma universitário. Em 1990 fez mestrado em relações internacionais na Universidade de Nova York e um ano depois estagiava na Unesco, em Paris, tornando-se depois presidente de honra da comissão espanhola da organização. Frequentadora de museus e eventos beneficentes, sempre manteve o comportamento discreto que lhe valeu uma história impecável. Até seu indiciamento, claro.

Depois de Paris, Cristina passou a viver em Barcelona, onde dividiu um apartamento com uma amiga e passou a trabalhar na fundação La Caixa, da qual hoje é presidente. Sempre acumulou essas atividades com o esqui e a vela, tendo representado a Espanha nos Jogos Olímpicos de Seul de 1988.

A infanta e Urdangarin, durante toda a vida deles, individual e compartilhada, foram peças exemplares e discretas, mas suas supostas atividades ilícitas colocaram em questionamento o próprio rei no seu pior ano. Tudo isso numa Espanha já bastante convulsionada pela grave crise econômica que atravessa, com níveis históricos de desemprego (26,3%) e pobreza. Longe de estar separadas, a suposta corrupção da casa real e a crise espanhola têm um ponto em comum: a indignação de uma sociedade que vê como seus impostos não apenas mantêm a família do rei como foram utilizados para o enriquecimento ilícito de pelo menos um dos seus membros. O envolvimento de Urdangarin foi descoberto quando estavam sendo investigadas as atividades ilícitas de Jaume Matas, ex-presidente do governo regional das Ilhas Baleares. Existe, portanto, uma relação entre a corrupção de alguns membros do partido conservador PP no governo (à qual depois veio se acrescentar um grande escândalo de pagamentos mensais irregulares que poderia ser chamado de "mensalão espanhol") e a coroa.

A reação da família real foi isolar totalmente Urdangarin e até retirar seu nome do website da monarquia. Em Palma de Mallorca, a Rambla de los Duques voltou a ser chamada simplesmente Rambla. Mas antes disso a monarquia já estava no seu pior momento. Em uma sociedade historicamente dividida, no que se conhece como "as duas Espanhas" desde a Guerra Civil de 1936 a 1939 entre republicanos (defensores da democracia) e nacionalistas (sob o comando do ditador Franco), o rei foi considerado por muitos anos o mediador necessário para a convivência de ambos na transição democrática que pôs fim, entre 1975 e 1977, a quase 40 anos de ditadura. Sua não interferência na política, por outro lado, e seu caráter afável e próximo das pessoas ajudaram Juan Carlos I a se tornar uma pessoa respeitada e até querida.

A profunda crise econômica e os últimos episódios envolvendo a casa real modificaram essa percepção, e a monarquia vive um momento frágil em termos de legitimidade. No dia 13 fará um ano que o rei fraturou a bacia durante uma caçada de elefantes em Botswana. A foto de Juan Carlos diante de um elefante morto causou revolta - primeiro pela questão ética de matar paquidermes na África, uma atividade proibida há anos; segundo porque a última coisa que uma sociedade sufocada pela situação econômica deseja é pagar com seus impostos desnecessárias e luxuosas viagens de lazer.

Não foi o primeiro incidente de Juan Carlos com armas de fogo. Em 1956 ele matou acidentalmente seu irmão mais velho com um tiro quando brincavam com um revólver. Para piorar as coisas, na viagem a Botswana o rei estava acompanhado de Corinna Zu Sayn-Wittgenstein, uma excêntrica empresária alemã que disseram ser sua amante e cujo nome apareceu recentemente implicado nas atividades corruptas de Urdangarin. Depois de operado, Juan Carlos saiu da sala de cirurgia e pediu desculpas insólitas pelo fato de alguém de sangue azul ir à caça de elefantes: "Errei, isso não tornará a acontecer."

A saúde do monarca anda complicada no momento por uma hérnia de disco, embora a casa real sempre mantenha um grande segredo em torno das suas enfermidades. A legitimidade da monarquia como regime também necessita de cuidados intensivos. Se não os receber, o principal prejudicado poderá ser o menos polêmico da família real, Felipe, príncipe de Astúrias. O herdeiro, num breve discurso depois de saber do indiciamento da irmã, manifestou "confiança" nos juízes encarregados do processo contra Urdangarin, e agora contra a infanta.

Casado desde 2004 com a jornalista Letizia Ortiz, Felipe de Bourbon pode não ser coroado ou receber a coroa sob uma forte pressão quando chegar o momento. Tudo por culpa de um ex-jogador de handebol que chegou à alta nobreza espanhola com seus olhos azuis e cara de bom menino e está se afastando dela como grande inimigo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* GERMÁN ARANDA É CORRESPONDENTE NO BRASIL DO JORNAL ESPANHOL EL MUNDO

 

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